Lex Luthor e a Filosofia

Luthor em Batman Vs Superman
Por Breno Lucano



As estórias em quadrinhos sempre me surpreenderam por suas reflexões filosóficas, principalmente no ramo da ética. Temos em heróis e vilões os mesmos dilemas, dúvidas e temores do mundo real. E, de todos os personagens, um em especial me ocuparei por enquanto: Lex Luthor.

Criado em 1940 por Jerry Siegel e Joe Shuster, Luthor passou por várias fases de composição, tendo sua última representação feita nos anos 80 por John Byrne, onde passou sucessivamente de um menino ruivo de Smallville a cientista maluco, mega-empresário e presidente americano. Sempre associado à figura de Superman, Luthor representa curiosamente sua antítese em muitos sentidos.

Diferentemente de outros grandes vilões, como Darkseide, Brainiac e Zod, Luthor é um simples humano. Não voa, possui poderes telecinéticos ou super-velocidade; é tão mortal, frágil e submetido às mesmas aflições triviais do gênero humano; e, mesmo assim, torna-se o maior vilão de Superman. Como consegue isso?



Num determinado momento do universo DC Comics, Jack Napier se torna Coringa, John Corben se torna Metalo e Pamela Isley, Hera Venenosa. Temos aqui uma visão existencial partida, onde uma botânica imbuída da causa ecológica durante o dia se torna à noite uma homicida. Esse dilema de identidade se torna ainda mais crucial na figura do enigmático Harvey Duas-Caras, um promotor que possui a metade do rosto deformado e que se torna incapaz de tomar decisões sem consultar sua moeda da sorte, sem decidir entre fazer e não fazer, entre certo e errado, belo e feio. Luthor não possui uma identidade no sub-mundo do crime. Não veste um colant e usa máscara. Todos sabem quem é Luthor, o mega-empresário proprietário da LexCorp aparentemente preocupado no desenvolvimento tecnológico de Metrópolis. Sua identidade é  una, sem conflitos, sem a comum ambivalência que faz alguns vilões exitarem antes de derrubar um prédio com inocentes dentro.


Outro ponto que merece destaque no personagem é sua capacidade intelectual ou, em outros termos, a razão. Muitos citarão a inteligência do Coringa, mas, ao meu ver, nada se equipara a Luthor. Temos aqui a excelência da intelectualidade, da razão. Utiliza sua riqueza e genialidade para fundar a LexCorp, e passa a trabalhar - segundo ele - pelo bem-estar da população de Metrópolis. Ao mesmo tempo em que se torna um dos maiores homens de negócios do país, controla secretamente o mundo do crime e chega, mesmo, a lubridiar Amanda Waller. Em Superman, O Retorno, ele invade a Fortaleza da Solidão e rouba cristais que contém toda a ciência e tecnologia de Krypton que serão usadas para a destruição de um continente inteiro.


A associação de Lex Luthor com a razão é curiosa. Os estóicos não se cansam de afirmar a supremacia da razão (lógos) para o fluxo harmonioso e eficaz da vida. O lógos é o ponto de partida para a vida feliz porque dela provém as diretrizes sobre o juízo, sobre o que fazer ou não fazer (kathekon), sobre o que desejar ou repelir. Com Luthor, contudo, algo sai errado. O lógos, ao invés de se materializar pela capacidade de reflexão sobre o mundo, produzindo virtude, se direciona para outros campos. A razão se torna irracional, apaixonada (anseia a morte de Superman), invejosa (anseia a glória mítica de Superman) e se apresenta como delírio de grandesa e poder (ser presidente americano). O lógos se torna a-logos.

Em alguns aspectos, a índole doentia de um Homem-Brinquedo ou de um Coringa se torna mais humana que a de Luthor. Não temos um sujeito controlado pela racionalidade, mas pela loucura, pela irracionalidade, pelo desejo. Luthor não se concentra na figura da justiça e da ordem - embora entendidos do modo americano -, da paz e da virtude. É necessário uma outra eticidade, ultrapassando os antiquados conceitos de Bem e Mal. Ouvimos as vozes de Nietzsche.

Em Liga da Justiça Sem Limites, Lex Luthor transporta Darkseide de Apokolips à Terra, à procura da equação antivida. Amedrontado pela possível destruição eminente do planeta, reúne sua Liga da Injustiça e faz um acordo com a Liga da Justiça onde, todos juntos, combatem Darkseide. No fim da temporada, ele próprio dá sua vida em prol da salvação de todos, numa reviravolta impressionante do enredo. É o fim último da razão.

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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.