Deus e Seus Dilemas

por Breno Lucano

A religião, dirão os devotos, possui variadas funções. No mundo niilista, ela é a mola propulsora de significado, capaz de propor soluções para os absurdos que a vida é capaz de induzir. Com efeito, a morte, a angústia e a solidão são devidamente sanados com a ajuda de Deus, por meio de cultos, infusões, preces, imposições corporais. O Senhor do Tempo se comporta das mais diversas formas.

Dirão outros que Deus favorece a coesão popular. Não nego esse fenômeno. Num meio monoteísta temos essa coesão de modo cada vez mais explícito: "que todos sejam um". A fraternidade universal é uma ambição genérica de todos os descendentes de Abraão. Em comunidade, uns fortalecem os outros, se ajudam, se consolam em suas dores. Formam um mundo apartado daquele que conhecem, repleto de traições, frustrações e dissabores. Esse é o poder de Deus.



Não nego que a religião possui essas faculdades. Não nego que, nos mais variados campos, ela realmente ajude o homem a superar as intempéries. Vemos missionários católicos e batistas com trabalhos humanitários sérios, prestando serviços à aqueles que ninguém mais podem contar senão com a sorte. Vemos Mórmons de casa em casa levando a Palavra. Vemos sinagogas e mesquitas cada vez mais lotadas de pessoas com fome de Deus.

O Brasil, em razão da forma como foi colonizado, possui diversas facetas religiosas. Através de estudo de religião comparada - ou mesmo por curiosidade - pode-se conhecer as diferentes formas de entender Deus, de senti-Lo, de abraça-Lo. Não raro temos sujeitos que tiveram várias experiências, foram criados num ambiente católico, se tornaram espíritas e atualmente são budistas, sem, claro, nunca deixar de se consultar com um preto-velho. Que levante a mão quem nunca, quando criança, correu atrás de doce de Cosme e Damião ...

Assim, a religião, enquanto moral popular, cumpre sua função social. Indica ao sujeito um caminho, mostra forças desconhecidas, conduz para dentro de si, renova, liberta. Quebra paradigmas, fortalece e dá forças ao sujeito em suas angústias mais graves. Impõe o Reino, o Bem, o Sumo-Bem. Afasta o Anti-Reino e tudo o que a ele diga respeito, a dor, o sofrimento, o Abominável.

O Abominável: chegamos a um campo crítico! Em seu conceito, herdado de Platão, Deus é a-temporal, um ser fora do tempo, da história. Um objeto que, embora transcendente, participa da mentalidade imanente, pessoal, histórica, sujeita às falhas do mundo sensível. Nunca seria possível pensar Deus sem aquele que o pense. Deus apenas existe porque existem homens que O pensem, que O reflitam, que O sintam, que, de alguma forma inconsciente, se sintam confortados. Pensar o eterno sob uma mentalidade temporal, eis toda a dificuldade, eis todas as impossibilidades.

A Palavra, assim, não é a Palavra do a-temporal, mas de um sujeito temporal que a põe na boca do a-temporal. Compreendido isso, temos que Deus assumiu, no transcorrer dos séculos, as mais variadas formas. Deus foi o proselitista, destruidor de sarracenos, perseguidor dos infiéis. Mas também foi um Pai de amor. Deus foi ao mesmo tempo um Sujeito que persegue aqueles que Nele não crêem, condenando-os ao inferno para toda a eternidade por seus ímpios erros e um Ente de pura compaixão e solidariedade.

Deus é a criação do Diabo, dirão alguns. Aqueles que assim pensam não estão desprovidos de razão. Os missionários também caçam, erram, dilapidam porque humanos, sujeitos que, embora articulados com o a-temporal, vivem no temporal, se juntam ao imanente, participam da cultura e do modo de pensar do lugar-comum. Deus é o exato contra-peso de Deus, seu maior dilema, sua maior dificuldade. O Abominável, outrora alvo de críticas e dissabores, de contínua trans-formação no que é insondável, se torna exatamente a substância que a todos conduz.

Não proponho rejeição às encarnações imanentes do eterno. Em nenhum momento propus a morte de Deus, embora ela seja inevitável. Nunca repeli a idéia de consulta de cartas, um conselho com um pastor luterano, de um frei católico ou um rabino. Apesar de Feuerbach, nunca neguei que Deus possua suas formas benignas. Mas sempre notei a dificuldade que que há em se andar sozinho, desprotegido, entregue à própria sorte, em ser finalmente Homem.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.