Um Pouco Mais dos Cirenaicos

(90) De fato, o movimento da alma se exaure com o tempo. Os adeptos dessa escola (cirenaicos) afirmam ainda que o prazer não pode resultar apenas da visão ou da audição, já que ouvimos com prazer a imitação de lamentos, enquanto os lamentos reais causam sofrimento. Os cirenaicos chamaram a ausência de prazer e a ausência de dor de condições intermediarias; em sua opinião os prazeres somáticos são muito melhores que os psíquicos, e as dores somáticas são muito piores que as dores psíquicas, e essa é a razão de os culpados serem punidos com as primeiras. Presumiam que a dor é mais penosa, e o prazer é mais conforme à natureza, e por isso davam maior atenção ao corpo que à alma. Mais ainda: embora o prazer seja desejável por si mesmo, esses filósofos sustentam que as causas geradores de certos prazeres são de natureza dolorosa e frequentemnete são contrários do prazer, de tal maneira que o acúmulo de prazer que não produz felicidade lhes parece muito difícil.


(91) Eles afirmam que nem todos os sábios vivem agradavelmente, nem todos os estultos penosamente, mas a maioria dos casos  é assim. Basta vivermos cada prazer isoladamente que se nos depare. Dizem ainda que a prudência é um bem,  embora não seja desejável por si mesma, e assim por causa de suas consequencias; fazemos amigos levados pelo interesse, da mesma forma que amamos uma parte do corpo enquanto a temos. Encontram-se algumas formas de excelência até nos estultos. Os exercícios físicos contribuem para a obtenção da excelência. O sábio não sentirá inveja, nem amor, nem superstição, pois esses sentimentos devem-se apenas à opinião vã; ele está sujeito, entretanto, à dor e ao temor, pois essas afecções são naturais. A riqueza também produz o prazer, embora não seja desejável por si mesma.


DL, Livro II, 90-91


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.