Crítica dos Cínicos Quanto à Religião

Pareceu-me mais útil começar pela análise dos motivos dos cínicos antes de me voltar para uma lista de suas críticas à religião. Basta abrir o Livro 6 de Diógenes Laércio para encontrar inúmeros exemplos dessas críticas. No plano da oposição às práticas tradicionais, Antístenes compartilha totalmente as atitudes de Diógenes e seus sucessores. Como eles, concentra seus ataques na noção tradicional e popular de divindade - qual seja, no antropomorfismo -, embora mire também o coração do politeísmo. Quando ele afirma que "Deus não se parece com ninguém (ou nada); é precisamente por isso que ninguém pode apreendê-lo por meio de uma imagem1, pretende lançar dúvida sobre o culto de estátuas. No mesmo espírito, Diógenes recusa-se a admitir que os deuses vivam em templos2. Esse aspecto do cinismo deve ter influenciado os estóicos, em particular os dois que eram mais próximos dos cínicos: o jovem Zenão, que disse sua República que não havia sentido em construir templos, uma vez que nenhum trabalho de construtor ou de artesão é sagrado3; e Ariston de Quios, que diz que o homem não pode apreender a forma de Deus: (Ariston)... qui neque formam dei itellegi posse censeat4. Por fim, devemos lembrar que um dos dogmas do catecismo estóico é (theon) me einai anthropomorphon (Deus não existe em forma humana).5



Em outras partes, a crítica dos cínicos refere-se a formas tradicionais de religião e, em paticular, aos Mistérios6. A objeção dos cínicos à prática dos Mistérios é que, depois de o processo de iniciação ter sido completado, o iniciado acredita que ganhou um direito automático à salvação e que no fim de sua vida ele terá um lugar garantido nas Ilhas dos Boas-Aventurados. Isso significa, ou assim o supõe, que se a teoria é levada ao extremo eles podem levar uma vida de devassidão, sem medo de castigo, a partir do momento em que se tornam iniciados. Essa afirmação de controle sobre o poder dos deuses chocava os cínicos. A reflexão de Diógenes sobre o assunto da não-iniciação de Agesilau e Epaminondas em Elêusis já foi citada. Não é menos relevante o comentário áspero de Antístenes a um sacerdote que estava celebrando os Mistérios Órficos7. Enquanto estava sendo iniciado nos Mistérios Órficos, e depois de o sacerdote ter confirmado que os iniciados desfrutavam de certas vantagens no Hades, Antístenes replicou: "Por que razão estão você não morre?"8

A oração era outro alvo preferencial de nossos filósofos. Como já vimos, eles desaprovavam os fiéis pelo conteúdo de suas orações, pois estes com frequencia pediam coisas que julgavam ser bençãos, mas de fato não o eram. Além disso, reprovavam-nos por se dirigirem aos deuses antes de ter feito tudo o que estava em seu poder para ajudar a si mesmos. As oferendas e os sacrifícios também não eram poupados. Vimos como Antístenes disse a alguns sacerdotes de Cibele que vieram lhe pedir auxílio: "Eu não vou alimentar a Mãe dos Deuses; os deuses a alimentam". 9 Diógenes, vendo algumas pessoas fazenso sacrifícios aos deuses para terem um filho, disse-lhes: "Vocês não fazem sacrifícios pelo tipo de pessoa que seu filho vai se tornar?"10 E é esse mesmo Diógenes que faz piada com as placas comemorativas de Samotrácia oferecidas em agradecimento aos cabires, protetores dos viajantes durante as tempestades no mar.  Com a sua agudeza habitual, ele comentou com alguém que estava impressionado com as placas: "Haveria muito mais se elas fossem oferecidas por aqueles que não se salvaram." 11

A mesma virulência é demonstrada contra a interpretação de sonhos. Diógenes censurava os homens aterrorizados com seus sonhos por não se preocuparem com o que faziam quando estavam despertos, e no entanto ficarem curiosos pelo que imaginavam quando adormecidos.12 E atitudes similarres eam adotadas com relação a ritos de purificação. Seria absurdo, de acordo com Diógenes, imaginar que a água pode nos limpar de nossos erros morais mais do que ela pode nos purificar de nossos erros de gramática. 13

Resta a questão das instituições religiosas. Um dia, Diógenes viu os guardiões de um templo arrastando para fora um homem que havia roubado uma taça do tesouro do templo e disse: "Vejam: grandes ladrões levando embora o pequeno."14

De modo geral, portanto, os cínicos não aceitaam a tendência a fazer que a felicidade humana dependesse de práticas que não tinham nada a er com a disposição moral do homem.




GOULET-CAZÉ, M.-O. Religião e os Primeiros Cínicos. In__: GOULET-CAZÉ, Marie-Odile & BRANHAM, R. Bracht. Os Cínicos: O Movimento Cínico na Antiguidade e o Seu Legado. Edições Loyola: São Paulo, 2007. p.77-78



Notas:


1. Fr. V A 181 G

2. É por essa razão que comer o seu jantar num templo não era mais difícil para ele do que comê-lo na praça da cidade.

3. SVF 1.264

4. SVF 1.378

5. SVF 2.1021

6. A crença popular era que os Mistérios nos libertavam do Destino, da causalidade determinada conhecida pelos gregos como heiarmene. 

7. Antístenes não questionava a prática dos Mistérios, mas recusava-se a aceitar que a mera iniciação desse uma garantia automática de recompensa futura.

8. Fr V A 178 G. Ver também Bion de Borístenes (fr. 28 Kindstrand), que ridicularizava o castigo inflingido no Hades aos não-iniciados nos Mistérios

9. Fr. V A 182 G

10. DL 6.63

11. DL 6.59

12. DL 6.43

13. DL 6.42

14. DL 6.45

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.