La Mettrie e Fonte de Volúpia

Julien Offray de La Mettrie nasceu na cidade portuária de Saint-Malo (na França) em 1709 e faleceu em 1751, em Berlin, na corte do rei Frederico II da Prússia, onde se refugiara após)a condenação de suas primeiras obras filosóficas (Histoire Naturelle de l'Ame e L'Homme-machine). Logo trocou a teologia pela medicina, que aprendeu em Paria e depois em Leyden, na Holanda, com o famoso Hermann Boerhaave, mestre da escola "iatromecânica", que explicava os fenômenos do corpo graças ao mecanismo da circulação do sangue e da irritação ou tensão das fibras do corpo. Apesar de a história contar que o diagnóstico da morte de La Mettrie tenha sido indigestão por ter comido patê estragado, não é impossível que ele tenha sido envenenado. Grande era o número de seus inimigos, entre teólogos, que o acusavam de ateu, discípulo de Epicuro e espinosista (termo que resumia os dois anteriores); e entre os próprios filósofos, que, como Diderot, o acusavam de aniquilar a base de toda moral possível, ao afirmar a necessidade de todas as nossas ações, que seriam, para usar termos anacrônicos, determinadas biologicamente.



Foi no campo de batalha, como médico do exército, que observou em seus pacientes e em si próprio o fato de que o pensamento e a vontade podem ser alterados pelas doenças (por exemplo: febre alta pode causar delírio). L Mettrie começou a se indagar sobre a influência dos estados do corpo sobre os do espírito e acabou desenvolvendo uma filosofia que resultaria no primeiro e mais radical materialismo das Luzes francesas, cuja tese central é a da dependência psico-fisiológica. Ou seja: não existiria um espírito, mas "estados de espírito", correlativos aos do corpo. La Mettrie interessou-se em saber o que é que chamamos de "alma". Indagou-se se podemos realmente dizer, com a Escolástica, que se trata de uma substância imaterial e imortal, se é possível conhecê-la e como? La Mettrie opõe ao "cogito" cartesiano e à idéia de que o bom senso seria  a coisa no mundo mais compartilhada,  a nossa experiência comum que, por sia vez , mostraria o quanto somos determinados por causas físicas e quão pouco somos "mestres de nossa própria causa".

Razão e vontade são frágeis e inconstantes, dependem de nossa alimentação e estado de saúde: café nos deixa acordados por mais que queiramos dormir, vinho nos deixa alegres ou eufóricos; ópio, letárgicos. Além disso, a razão varia com as idades: nasce na infância, cresce e muitas vezes decai ou morre na velhice, como na doença. Se é ela que define a humanidade, como classificar então o homem senil, o louco, o selvagem, o doente em catalepsia ou aquele que está sob a influência de drogas? Como caracterizar os "homens de corpo" cuja razão se desvaneceu? Não merecem o epíteto de "homem"? Qual o traço mais universal, comum a todos? São perguntas que estão nas entrelinhas da obra de La Mettrie e, em particular, em O Homem-Máquina, e parecem ter sido fundamentais no desenvolvimento de sua reflexão epistemológica e ética.

Além do mais, em O Homem-Máquina é enfatizado que mesmo quando pensamos estar em plena razão, movimentos de osso corpo - que chamamos hoje de "reflexo" - se fazem mecânica ou instintivamente.  Quantos pensamentos também não se fazem assim? O que seria muito depois de La Mettrie chamado de "inconsciente" por Freud. La Mettrie diz que Locke "demonstra graças à uma multidão de razões tiradas do sono, da infância, da apoplexia, etc. Que o homem pode existir, sem ter o sentimento (entendamos, sem ter a consciência) de seu ser". Deveríamos, então, "renunciar à vaidade de crer que a alma pensa sempre...".1 Esta parece ser uma das idéias centrais de O Homem-Máquina, publicado anonimamente em 1747, tornando La Mettrie famoso, não porque as pessoas o tivessem lido e gostado,mas pelo escândalo que causou esse título. Lembrava propositalmente o nome da teoria de Descartes, dos "animais-máquinas" que afirmava serem os animais máquinas insensíveis e sem alma.

Esta última, sendo privilégio do homem, o único a ter duas substâncias (material: o corpo; e imaterial: a alma). La Mettrie achava ridícula a negação da sensibilidade animal, consequencia da tentativa cartesiana de explicar o ser vivo através das leis da física-matemática. Para La Mettrie, o organismo não era uma máqina fria (apesar de ser este um modelo interessante de reflexão sobre o corpo). Há para ele uma diferença entre a matéria inerte e a matéria orgânica que nos compõe assim como aos animais. Para explicar essa diferença não devemos inventar um ser mágica: devemos admitir nossa incapacidade de atingir a essência das coisas e procurar descobrir as propriedades da matéria que nos compõe. Ao contrário do que se crê à primeira vista, o título O Homem-Máquina seria na realidade uma parodia de Descartes e uma extrapolação do seu erro, em vista de evidenciar o absurdo de sua tese. O título subentende um silogismo: se os animais são máquinas, o homem, que é um animal (para La Mettrie que não crê na existência de outra substância que a matéria) também seria máquina, insensível e sem alma (como o pretendia Descartes sobre os animais). Ora, tal conclusão soa absurda, pois cada um de nós sabe que sente e pensa.

Por outro lado, para La Mettrie, dizer que o homem é uma máquina significa que ele é um ser puramente material, que o pensamento também deve ser estudado anatomicamente através das partes do corpo e do cérebro. La Mettrie escreve em 1745 Histoire Naturelle de l'Ame (História Natural da Alma). Eis o que diz a seu respeito a Corte do Parlamento: essa obra "(...) sob pretexto de aprofundar a natureza, e os caracteres do espírito humano, tem o propósito de aniquilá-lo; e reduzindo-o à matéria, destrói os fundamentos de toda religião e de toda virtude."2 De fato, se o título do livro fala da alma, seus seis primeiros capítulos tratam paradoxalmente só da matéria e de suas propriedades.

Segundo La Mettrie, se a "alma" tem alguma realidade, há de buscá-la nas entranhas, dissecando o corpo e particularmente o cérebro, e não em sistemas metafísicos que só trazem preconceitos e medos, como o da punição divina, do inferno, etc. Fazer uma história natural da alma significa estudá-la anatomicamente, como a qualquer outro objeto que se pode observar na natureza. Significa também considerá-la algo que nasce, cresce e morre. Eis aí o escândalo para a época e porquê das acusações de "moralicídio": se afirmarmos a materialidade e a mortalidade da alma, acabamos com o dogma da reencarnação, do inferno e da salvação, que justificariam as boas ações e agiriam como reguladores sociais.

Na primeira metade do século XVIII o maerialismo de La Mettrie via-se como o sistema que libertaria o homem dos dogmas religiosos sem valor científico - fonte de infelicidade e frustração ao diabolizar a sua dimensão corporal e sensual. Mas para isso precisava provar que o homem é autônomo, que tem em si o motor de sua vida e suas idéias (que não lhe foram dadas por um Deus, como afirmava a teoria das idéias inatas de Descartes). Por isso, na Histoire Naturelle de l'âme, La Mettrie procura provar, graças a experiências e observações inspiradas na medicina e da história natural (que chamamos hoje de biologia), que a matéria orgânica não é inerte, mas contém potencialmente em si o movimento e a sensibilidade.

La Mettrie é um dos primeiros a utilizar a noção de "fibra" e "irritabilidade", descobertas por Haller. No começo do século XVIII, a anatomia sofria uma revolução graças à invenção do microscópio por Leeuwenhoek, no fim do século XVII, que observou nervos e fibras musculares, e descobriu a existência dos então chamados "vermes espermáticos". É a partir dessa força interna na matéria organizada (a irritabilidade) que La Mettrie quis explicar a origem da sensibilidade e do pensamento. A tese materialista segundo a qual os germes das idéias são necessariamente materiais e sensíveis, e que nossa alma racional nada seria senão a alma sensitiva (vocabulário aristotélico), responde a duas questões: 1) a de saber qual a essência, ou o traço mais universal do homem; 2) aquela epistmológica de saber qual o guia mais seguro sobre qual o conhecimento deve se fundar.

Paradoxalmente, o ideal daquele que escreveu Homem-Máquina não era o do robô, mas o do homem sensível e natural. Sua filosofia, qualificada de "reducionismo" (reduz a alma ao corpo e nega a existência de outra substância no homem e no mundo além da matéria), se vê como afirmação da liberdade e da autonomia material do ser humano, liberando para viver plenamente e sem remorsos esta vida única e efêmera.

O pensamento de La Mettrie pode ser considerado subversivo na medida em que uma de suas consequencias diretas é a liberdade absoluta que temos de dispor como queiramos e sem remorsos de nossos corpos (e logo de nosso pensamento, que nada é senão um fenômeno do corpo). E particularmente como fonte de prazer e de volúpia. A redefinição médica do homem e da alma tem uma consequencia ética direta. La Mettrie permanece fiel à ética hedonista de Epicuro, para quem o bem nada é senão o prazer físico e o mal, a dor a ser evitada. E esse será o princípio a ser seguido pelo materialista, que não fará ao próximo o que não quer que lhe façam. Essa reflexão conduz também a um questionamento ético sobre as práticas atuais para com os animais, cujo sofrimento ou morte não justificados pelo bem estar humano.



NOTAS

1. La Mettrie, Abrégé des Systemes, (Euvres Philosophiques, Tours, ed. Fayard, 1987. L1, p. 265

2. Publicado pela Revue Corpus de Philosophie, 1987, p. 131, traduzido por mim



GRISTELLI, Juliana. Fonte de Volúpia. In__: Ciência & Vida: Filosofia Especial. Ano II, N 7. Ed Escala. p. 40-43



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.