Uma Conversa Com o Roteirista do Filme Amor Sem Fronteiras, Caspian Tredwell-Owen

Devo ter entrevistado de 30 a 40 trabalhadores humanitários em 2 anos. Eles foram incríveis. Realmente se abriram para mim e não esconderam nada. E o fizeram de boa vontade. Eles se abriram emocionalmente e me contaram sobre dilemas profissionais e pessoais.

Os trabalhadores humanitários não querem ser considerados santos. Dizem que são imperfeitos como nós e não querem ser postos no pedestal. Mas eu acho que o que eles fazem têm uma nobreza implícita. Afinal de contas, eles deixam seus países e vão para lugares inóspitos muitas vezes por quantias irrisórias e arriscam suas vidas.

Eles não são diferentes de nós. Só o que fazem é diferente. Eles não levam uma vida de luxo em Kosovo ou na África. A vida deles é precária. Mas eles não desistem. Às vezes, eles começam aos 20 anos com o objetivo de mudar o mundo. E eles não desanimam, embora saibam que só realizarão uma pequena parte de seu sonho. Mesmo quando estão na idade de formar uma família e não podem mais trabalhar in loco, eles aceitam um cargo administrativo angariando fundos e coisas afins.



O que tentei passar no filme é que eles, às vezes, se vêem na posição de terem de escolher entre 2 males. Não há outra saída. E esse é um fardo muito pesado. No filme, Nick é obcecado por sua missão humanitária e se priva dos prazeres da felicidade e do amor. Sarah vive em um mundo protegido e privilegiado e Nick a acorda para a realidade. Ela se aventura para estar com ele, e, no ampliar de seus horizontes, ela também lhe dá a chance de viver a felicidade do qual se privou. É como a lenda de Orfeu e Eurídice, em que Orfeu vai até o inferno salvar sua amada. Eu só inverti os papéis. É ela que vai até o inferno resgatar Nick.

Quanto à escolha dos locais, achei que a Etiópia era importante para minha geração. Foi a  primeira grande operação humanitária de que me lembro. Abri meus olhos para esses problemas. O Camboja foi o melhor exemplo que encontrei de guerra civil. As pessoas estavam encurraladas entre duas facções. Os campos estavam sob o controle de regimes paralelos e os trabalhadores não podiam fazer muito. Quando detectava qualquer ameaça ao campo, eles puniam ou executavam os responsáveis. Para o Khmer Vermelho, armas eram brinquedos. Daí a idéia de colocar uma granada na mão de uma criança.

A intenção do filme no que toca a escolha de países como a Etiópia, o Camboja e a Chechênia foi a de mostrar o desgaste da Convenção de Genebra. Na Etiópia, deveria ser simples transportar suprimentos de um ponto ao outro. O Camboja do filme é quase uma terra de ninguém. As pessoas foram completamente abandonadas. O Khmer Vermelho matou os intelectuais e os médicos. Apesar de ficção, é onde Nick está. Quando chegamos à Chechênia a coisa piora. Os trabalhadores correm perigo de vida, o que ainda acontece hoje em dia.


O objetivo de trabalho humanitário talvez seja fazer um esforço pra que todos saibam que você se preocupa. O sucesso dessas missões é discutível. A Etiópia está à beira da fome de novo. Ms eu acho que só deles terem ido lá já é alguma coisa. Par entender o que acontece, imagine que você é uma criança faminta. Você está na fila de um posto de alimentação e vê que a pessoa que serve a comida é muito diferente de você. Apesar da dor e do cansaço, você gravou essa imagem. Essa pessoa veio de muito longe para ajudar só porque ela se preocupa com você. Alguém se preocupa com sua vida. Acho que todo mundo gostaria de saber disso.


* conteúdo extraído do extra do filme Amor Sem Fronteiras 

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.