Aristipo e a Extravagância da Virtude

por Breno Lucano


"... nada impede que um homem viva extravagantemente e bem."
Aristipo (DL, II: 69)

Aristipo, filósofo hedonista, filósofo emblemático, portanto. Isso porque incorremos no lugar-comum de que não se pode ser filósofo e hedonista ao mesmo tempo, nada de filosofar e se adentrar em bordéis, participar de banquetes, festas e sensualismo. A filosofia, dizem, não se ocupa disso. A ela deve-se mais respeito, mais determinação e menos ousadia. Pelo menos é o que pensam os que entendem a filosofia como algo capaz de conduzir ao infinito, ao eterno, ao absoluto. Aristipo ao lado de grandes nomes como Heráclito, Parmênides ou Aristóteles? Pouco provável. É curioso como no diálogo Filebo Platão nunca menciona o nome de Aristipo, embora dedique a obra inteira à discurssão do prazer.

Nosso filósofo de Cirene evita os extremos. Isso o faz, diferentemente de Sócrates e dos platônicos, a exigir dinheiro em troca de suas aulas. Primeira subversão! Aristipo não vê o dinheiro como um bem em si - único bem é o prazer -, mas como um meio de descomplicar a vida, de torná-la mais facilitada. Para ele, a riqueza e a pobreza são dois estados que coagem, entravam a liberdade e impossibilitam uma verdadeira autonomia - lembremos que a autonomia é a palavra-chave na Antiguidade. Nem mendigo nem rico é visto como modelo de virtude. Assim, rejeita tanto os farrapos de Diógenes quanto o brocado de Platão. Se o dinheiro realmente nada vale, que, ao menos, sirva para dispersar as contrariedades.


Segunda subversão: contrariando Platão, para quem apenas é filósofo à medida em que se aprende geometria e a matemática, Aristipo entende essas técnicas como inúteis para a vida feliz. Nada de cifras ou números, como aparece no Timeu. A ética do cirenaico visa exclusivamente ao júbilo que se alcança criando liberdade para si. 

Essa boa distância entre as coisas nos mostra como proceder com o dinheiro. Mas também com outros aspectos da vida diária. Com as mulheres, a mesma coisa: seria errado privar-se delas da mesma forma que viver exclusivamente em detrimento delas. Nem monge, nem depravado. A boa distância nos mostra o desfrute do prazer que não se obtém com o desprazer futuro. Assim, encontramos anedotas em que Aristipo é visto entrando em bordéis e alegando que o problema não é por os pés naquele lugar, mas não saber sair dele. Em outro momento, indagam que Aristipo vive com uma prostituta e sua resposta foi que possuía a prostituta mas a prostituta não o possuia.

O essencial é a fruição do instante, o conhecido Kairós. Celebrando o instante, descarta as possibilidades de um prazer que ainda não existem ou que já foram vivenciados e que passaram. Da mesma forma que impede a busca prazeirosa em locais onde ele ainda não se encontram. Ao contrário, a celebração consiste nos prazeres que nos chegam, à medida em que se apresentam, no instante, no local.

Mas como conceituar o prazer em Aristipo? Difícil afirmar. O que Diógenes Laércio afirma três séculos depois de Cristo difere, às vezes, dos fragmentos coletados na doxografia estóica - essecialmente Cícero. Lactânio, Gregório de Nazianzo e Agostinho também o retratam, sempre de forma caricata. Acusam a filosofia aristipiana de incentivar o gozo desmedido, a luxúria, o estupro. Quando certos textos falam da igualdade de todos os prazeres, entre as ausências de diferenças entre os gozos do corpo e os do espírito, quando outro afirma a superioridade dos gozos corporais sobre os do espírito, o que se pode concluir? Não se sabe.

Aristipo combate os clássicos. Lactânio afirma que, para o cirenaico, o gozo não ocorre contra a consciência, a despeito dela: o primeiro necessita do segundo para existir.  Assim, o gozo dos animais nunca interessou a Aristipo. Não há gozo, não há prazer quando a consciência, a razão, a cultura e a reflexão não influam, não infundam forma e propósito. O prazer verdadeiro é sempre o que for desejado, almejado, escolhido, dominado, fabricado por seus próprios cuidados. Não é algo passivo, do qual o homem apenas se submete, mas detalhado segundo uma eumetria própria. O júbilo não consiste em ser consumido ou queimado pelos prazeres, mas aquecido por eles. Não interessa para Aristipo, assim como para Platão, o prazer báquico, em que a consciência, a razão e o corpo se perdem.

Da fabricação do prazer decorre o conhecido prazer dinâmico, do qual Aristipo é conhecido e o faz diferenciar de Epicuro. O prazer não consiste na ausência de dor, na traquilidade, como para o filósofo de Samos. Não sofrer não é ser feliz: a ausência do negativo não constitui o positivo. O prazer é necessariamente local e isolado, escolhido por aquele que o sente, sempre subjetivo - inovação de Aristipo ao afirmar que dor e prazer são percebidos de formas diferentes entre as subjetividades.

Seja como for, as anedotas, as visões distorcidas no decorrer da história, a forma de pensar o prazer, de refletir a dor e comemorar a vida nos fazem concluir sua sua importância real ainda está por ser escrita.


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.