Gassendi e o Epicurismo Cristão

por Breno Lucano

O que busca a filosofia de Gassendi? Nada  menos que a felicidade e o prazer. Tendo em razão sua proposta eudemonista, ataca Aristóteles de todas as formas, chegando mesmo a afirmar que sua leitura é profundamente entediante. A mola propulsora do ataque foi o pirronismo. Mas entenda bem: o ceticismo foi o caminho metodológico da obra gassendista, nunca a conclusão.

Aristóteles à parte, a rivalidade principal sempre foi Descartes. Aprofundemos: Descartes, partindo da dúvida, alcança certezas ontológicas, passando pelo cogito, pelas idéias inatas, por Deus, construindo a metafísica moderna. Gassendi, por outro lado, admite que a razão não é o instrumento adequado para o alcance de Deus, já que é limitado e pouco confiável. Ambos são homens de ciência. Creem na observação, na dedução, confederem a física como modelo. Mas Gassendi limita a ciência, entende que ela deve poupar os assuntos religiosos.



Se Aristóteles e Descartes devem ser evitados, não se duvida. E Gassendi utiliza Epicuro como ferramenta, mesmo que um Epicuro cristianizado, corrigido, mais afeito ao emblema católico. Assim, em 1647 publica Vida e Costumes de Epicuro; traduz e edita o Livro X de Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, especialmente as cartas a Pítocles, Heródoto e Meneceu; e, em 1649 publica, finalmente, Tratado de Filosofia de Epicuro.

Reabilitação, portanto, do filósofo do Jardim. Lembremos que Epicuro sempre foi visto como um despudorado, escravo dos prazeres, libertino. E, claro, essa caricatura progrediu até os tempos de Gassendi, graças ao cristianismo. Dessa forma, Epicuro é colocado lado-a-lado aos dogmas da Igreja. Podendo optar, Gassendi escolhe a religião; podendo conciliar, cria um Epicuro cristão bem à sua forma. Para evitar críticas, escolhe uma epígrafe isenta de qualquer dúvida nem consternação: uma citação de A Vida Feliz, de Sêneca.  Lembremos que Giordano Bruno fora queimado há apenas algumas décadas e o pensamento livre era algo perigoso. Talvez isso explique, a tentativa de conciliação entre cristianismo e epicurismo.

A vida dita ímpia de Epicuro torna Gassendi ímpio? Não. Nosso filósofo foi padre e teologal, celebra as missas e prega pela conversão dos pecadores. Por outro lado, se opõe à superstição que uma relação falsa com os deuses produz. A crítica que Epicuro faz da religião permite que Gassendi sustente uma hipótese que alguns cristãos utilizavam para Platão e os Estóicos: o filósofo do Jardim prepara para a verdadeira religião, o cristianismo, mas faltava-lhe a graça para tanto.

Fiel ao mestre, Gassendi retoma o tema da filosofia como terapia; redução da disciplina à ética; ataraxía e volúpia identificadas ao soberano bem; preferencia pelo prazer imóvel a outro em movimento; dor e prazer coincidindo com mau e bom, em outras palavras, ao mal e bem; necessidade de uma dietética dos desejos - naturais e necessários; prática de uma aritmética dos prazeres - evitação de um prazer que se transforma em desprazer; redução do mundo a átomos em movimento no vazio; a morte não deve ser temida, ela não nos concerne; a dor é suportável, senão ela nos leva; pode-se e deve-se filosofar em todas as idades; os deuses não têm aspecto nem pensamento humano; entre outros pontos clássicos.

Em alguns momentos, discorda de Epicuro. Contra a alma material, afirma sua imortalidade; contra a despreocupação dos deuses com os homens, ele crê num Deus que ama o homem; à pura organização física de átomos, o teologal opõe um Deus criador do mundo; contra a possibilidade de dispor da sua existência quando ela se torna penosa demais de ser vivida, o padre proíbe o suicídio.

Tal como ocorreu com Meslier, Gassendi viveu num meandro existencial duplo. Se por hora, como padre, defendia a ascensão ao Paraíso, a vida eterna, o medo do Inferno, em outro momento, em seus tratados, discursava sobre um filósofo que acreditava que os deuses não deveriam ser temidos. De fato, como é possível construir um edifício transcendente por meio de colunas imanentes? Mas o tempo ainda não havia chegado. Ainda não era possível pensar livremente, expor suas idéias sem o temor do censor, das fogueiras, do Index. O tempo produz apenas os filósofos que pode, não os que deve.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.