Gassendi, o Padre Epicurista

por Breno Lucano

Nascido em 1592, ano da morte de Montaigne, Gassendi ainda se chama Gassend. Era comum a italianização do nome segundo o gosto de Maria de Médicis. Seus pais, camponeses de Alpes-de-Haute-Provence, onde passa os anos mais importantes de sua vida, salvo breves períodos em Paris.

Progredindo rápido nos estudos, já aos 16 anos ensina retórica do colégio em Digne, de onde se torna diretor aos 22. Pouco mais tarde torna-se doutor em teologia, o que lhe confere a possibilidade de pregar e ensinar. Assume, finalmente a cátedra de filosofia e teologia em Aix-en-Provence. Por alguns anos ensina Aristóteles, embora sempre de forma heterodoxa: apoia-se na ciência e na experimentação, na verificação dos fatos, partindo do corpo sensual.

Aula sobre Aristóteles? Melhor dizendo: contra Aristóteles. Ataca a escolástica sempre que possível, assim como Descartes por querer provar racionalmente a existência de Deus, quando, para Gassendi, Deus é tão-somente um artigo de fé. Mas nosso filósofo possui outras ocupações, além da filosofia e teologia. Estudioso de anatomia e pratica dissecação; nas horas vagas, tece observações astronômicas.


Vegetariano que se abstém de vinho - com exceção do Sangue de Cristo quando celebra missas -, o corpo de Gassendi é frágil como o de Epicuro. Doente - alguns falam em tuberculose -, Gassendi sofre pela morte de seu amigo Nicolas Peiresc. Mesmo assim realiza um considerável trabalho erudito, leitor dos antigos e dos contemporâneos, como Montaigne e Charron. Escreve sempre em latim, pratica o grego, aprende o hebraico e o árabe. 

No campo da astronomia, Gassendi observa eclipses do sol e da lua, auroras boreais; observa Saturno, o movimento de Mercúrio sob o disco solar. Com Peiresc elabora uma carta da lua. Um circo lunar hoje tem seu nome.

Na ciência, efetua pesquisas sobre a propagação do som, as leis do movimento, a duração dos percursos. Discursa sobre a inércia, trabalha com a dilatação e a condensação e afirma a existência do vazio - contra Descartes, que o nega. Como epicurista, afirma igualmente a existência dos átomos. Dessa forma, Gassendi não se configura como pensador teórico, mas como alguém que, experimentando o mundo, tira suas próprias conclusões a partir de métodos experimentais.

Defensor da razão pura, mesmo um século antes do Iluminismo, encurrala a astrologia, recusa a alquimia, rejeita a Cabala cristã e luta pela observação, pela dedução na astronomia, matemática, física e alguns ainda acrescentam a geologia e geografia.

Morre em 24 de outubro de 1655 em Paris, na casa de Habert de Montmort, que o hospeda faz três anos. Deixa livros em latim, manuscritos, publicações científicas, obras de filosofia - algumas inacabadas. A partir de tantos documentos, como podemos definir Gassendi? Não escreveu nenhum Discurso do Método. Detêm-se em Aristóteles, o escolástico malvado e entediante; em Descartes, com seu excesso de racionalismo; e em Epicuro, a quem venera como um santo.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.