Helvétius e o Amor-Próprio

por Breno Lucano

Herdeiro das teses de Locke e Hobbes, Helvétius não se engana: o filósofo é o cientista que olha, observa, tira suas conclusões sobre o mundo. Nega a metafísica como visão de mundo. Em sua substituição, informa que todo conhecimento possui sua origem nos sentidos. Portanto, um corpo e faculdades associadas a um cérebro - sentir, saborear, tocar, ver, tudo isso engloba a realidade.

Helvétius nega a tese recorrente de que o fogo divino em nós nos indica a verdade que é o próprio fogo. De modo algum: a materialidade da realidade pode ser apreendida graças à materialidade de um corpo que experimenta o mundo como a ajuda de seus sentidos. As paixões nos perturbam, não há dúvida, as oscilações do estado do corpo influem nos juízos, mas não se pode incriminar as sensações. Os erros oriundos de seu sensualismo não provém dos sentidos, mas dos falsos juízos dos objetos captados. Sentir é julgar; julgar é sentir.


"Locke é um gênio", ele escreve em Do Espírito. Grande admirador de Locke, afirma categoricamente que bastaria ensinar a pedagogia desse filósofo para a resolução dos problemas de sua sociedade. Crítico de Descartes, como Meslier, abole o idealismo, desacredita o espiritualismo e tudo o que, em maior ou menor grau, se assemelhe ao platonismo. Ao mesmo tempo, abre caminho para as tradições materialistas, hedonistas, ateias, mecanicistas e sensualistas.

O "desejo de prazer" (Do Espírito, 1.4) é o motor do mundo.  Influenciado por Locke, mas também por Epicuro, coloca o hedonismo no centro de sua visão de mundo. O que existe em comum entre todos os homens, dos salões parisienses aos povos bárbaros, dos idosos às crianças? Todos querem fruir. Todos os movimentos físicos, psíquicos, morais, políticos e históricos obedecem a essa lei simples.

Homem e prazer confluem. E o prazer desejado é apenas desejado para si. Basta rápido olhar ao redor e constatar o posicionamento do filósofo: cada um se coloca no centro do mundo e refere tudo a si. Cada um se prefere aos outros. E essa preferência é fundamentada num interesse trivial ou uma grande epopéia existencial. Toda moral ególica se traduz no princípio do prazer e do desejar a si como referência.

Ora, considerando que o interesse pelo prazer de si, pela própria fruição, incinde sobre o interesse geral, se essa nota psicológica que delineia o homem é inegável, como construir o próprio júbilo epicurista? Fazendo o homem se interessar em ser virtuoso.

Ao desenvolver essa nova práxis, o do interesse pela virtude, Helvétius desmembra, antes, as pretensas virtudes cristãs em Do Espírito e Do Homem. Pureza, beleza, gratuidade? Não. Temos um interesse de que a história se desenrole sob sua vontade. Amor à primeira vista, paixão? Motivos interesseiros, promessas de gozo, amor-próprio lisonjeado, esperanças de benefícios simbólicos ou mesmo concretos. A amizade como excelência da virtude, como em Epicuro ou Sêneca, para quem o amigo é um outro de si? Ora, o início da amizade se dá por interesse. Amor pelos filhos: lembremos que Helvétius fala por si mesmo, ele, que teve quatro filhos dos quais dois morrera precocemente. Amar o filho significa transmitir sua herança patronímica e patrimonial, a possibilidade de mandar sem riscos, de ser obedecido e de se jubilar no espetáculo do poder. Chorar a morte de um filho configura, assim, uma lágrima derramada pela própria sorte. E, por fim, a caridade. Que é amar o outro? Construir a própria salvação. O outro funciona como causa, como motor para o posterior, nunca como o fim. Aliviar as dores alheias, não por piedade, mas por cessar a própria dor em vê-lo sofrer, gozar com o exercídio do poder, amar-se no papel daquele que faz o bem, apaziguar a culpa, jubilar em se ver num papel heróico e por todos aplaudido.

Kant leu Do Espírito em tradução alemã e se tornou um dos principais opositores de Helvétius. Ao passo em que toda ética kantiana se baseia numa deontologia - a verdade é sempre boa, a mentira sempre ruim -, Helvétius aponta o utilitarismo. Toda moral se inscreve, não num processo inteligível e conceitual, mas numa lógica nominalista, concreta, imanente e pragmática. "A maior vantagem pública, ou seja, o maior prazer e a maior felicidade da maioria dos cidadãos", escreve em Do Homem.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.