Donatien, o Marquês de Sade

por Breno Lucano

Robert Englund interpretando Sade
 no filme Noites de Terror
Donatien Alphonse François (1740-1814), Conde e Marquês de Sade, passou os últimos anos de sua vida internado num hospício, diagnosticado como portador de uma mente vil e doentia. Claro, trata-se apenas de um dos vários locais onde passou internado ou preso, totalizando 27 anos de detenção, além de duas sentenças de morte que foram evitadas. Acusação: a vida agitada, orgias sem fim, flagelações, escândalos, devassidão. Seu nome se tornou sinônimo  de obscenidade, violência e da degradação.

Mas não podemos considerar a obra de Sade apenas como um amontoado de obscenidades ou um clássico estudo de casso do que a psicopatologia chamará hoje de sadismo. Essa crítica, pouco esclarecida, além de moralista, é superficial e reducionista. Sade incomodava e ainda incomoda não por sua depravação, mas porque subvertia o discurso. Em variadas ocasiões afirmou que era impossível determinal um padrão universal de moralidade, uma vez que o que era virtuoso num local era vício em outro. Então, a única lei era a estabelecida pela Natureza. Lei e religião são superstições que deveriam ser abandonadas enquanto convenções humanas e, portanto, algo de menor valor.


Conhecido como anti-Rousseau, negava o estado natural de otimismo e bondade do homem. A Natureza nos conduz a um perpétuo estado de guerra e destruição, onde o gozo é o único objetivo. A crueldade, longe de ser um vício, é uma das manifestações da Natureza, uma espécie de deus que a tudo governa e tudo corrompe. A dor alheia é o mais eficiente caminho para a volúpia.

Obstinado em desmantelar os obstáculos impostos pela religião e suas morais, Sade concebe um mundo de libertinagem universal, repleto de destruição, orgias, assassinatos, adultérios, estupro, incesto, sodomia, parricídio, flagelação. Defende que a prostituição é uma formulação universal determinado pela Natureza. Práticas sexuais insólidas foram criadas como meios legítimos para atingir o que foi considerado por muitos como uma visão bizarra do futuro: um mundo sem Deus e qualquer justificativa racional de moralidade.

Contrariando o apelo religioso de que a espécie deve ser preservada enquanto criação amorosa de Deus, Sade entende que o homem se debruça em sua própria extinção. E mais, não é motivo para lamento. A Natureza, mãe de tudo o que existe, é a mesma que corrompe e degenera a existência. A satisfação dos delírios eróticos era o único consolo antes da destruição do gênero humano. 

Desde a juventude, o Marquês demonstrou uma vivacidade erótica incomum. O tédio sexual o incomodava. Com grande capacidade criativa e despojado de qualquer padrão moral descreveu várias formas execráveis de relações, muitas praticadas, outras reais apenas em seu castelo literário de Silling. Sade chocava até mesmo entre aqueles que estavam acostumados a transgredir os mandamentos mais simples de moralidade, onde a lealdade aos costumes estavam fora de moda.

As orgias de Sade foram comentadas em toda a França e, posteriormente, por toda a Europa e se tornou escândalo público, especialmente após três notórios crimes. O primeiro ocorreu na noite de 18 de outubro de 1763, quando tinha vinte e três anos. Donatien pega na rua uma jovem operária grávida, desempregada. Oferece-lhe dois luíses - uma fortuna! -, leva-a para uma casa alugada, prende-a. Após de ter se certificado da religião cristã da moça, arrota blasfêmias, goza contando histórias sacrilégias - masturbação num cálice, introdução de hóstias consagradas no sexo de mulheres. Solta a pobre mulher pela manhã.

Segundo crime, e o mais conhecido: o caso Rose Keller. Domingo de Páscoa, 3 de abril de 1768, Sade com vinte e oito anos, Rose com trinta e seis. Ela é tecelã, mendiga, viúva. Sade a amarra numa cama pelo ventre, imobiliza-a com um travesseiro sobre a nuca e a açoita violentamente. Ela grita, ele a faz calar sob ameaça de uma faca, bate se ou oito vezes, verte cera derretida nas ferias. Ela quer se confessar antes de morrer, ele ironiza e propõe ouvir seus pecados. Ela consegue fugir e acusa o Marquês de sequestro, coasão sexual, ameaça de morte, violência física, agressões e ferimentos.

Terceiro: Marselha, 27 de junho de 1772, Sade com trinta e dois anos. O criado de Donatien apanhou quatro moças na rua para uma noitada libertina. Sade as obriga a engolir drágeas de cantárida perfumadas com anis, drogas afrodisíacas que, quando ingeridas em doses abundantes, pode conduzir à morte. Viveram dois dias entre a vida e a morte. O Marquês pede para baterem nele com um azorrague guarnecido de alfinetes entortados. Simultaneamente, sodomiza seu criado enquanto o masturba. Acusado dos mesmos crimes, somado à tentativa de envenenamento.

Apesar de seus crimes é possível afirmar que a maioria de suas prisões foi motivada por perseguições de familiares, especialmente da Sogra. É bom lembrar que, sob a lei franesa, a prática de sodomia - uma das variações prediletas do Marquês - deveria sr punida pela morte na fogueira. O próprio Marquês, numa carta endereçada à Marquesa de Sade em 20 de fevereiro de 1781, quando na prisão de Vincennes, denuncia:

"Sou libertino, sim, eu confesso. Imaginei tudo o que se pode conceber neste gênero, mas certamente não fiz tudo o que concebi e seguramente jamais o farei."

Os anos em que viveu foram marcados por profundas transformações. O Antigo Regime desmoronou, o que significou profundos abalos para a religião católica. O Estado absolutista e a Igreja sofreram juntos. A queda de um acabou por envolver o que parecia ser a derrota do outro.

A lâmina da guilhotina servia para calar as constantes críticas de filósofos de matizes radicais. Uma parte do clero, sentindo-se ameaçada, engrossou as fileiras da contrarevolução e da ração. Claro, não se pode esquecer que o auto clero era um ramo da nobreza. O clero conservador sempre viu a Revolução Francesa como um de seus maiores inimigos, responsabilizado-a pela perda de seus privilégios e pela diminuição de sua participação na condução de assuntos terrenos. Foi um período em que inegavelmente o deus católico perdeu prestígio, sendo substituído pelo deus deísta. Gradativamente, a teologia perdeu espaço para o discurso filosófico. Já durante o período napoleônico, os padres recuperaram muitos dos seus privilégios e parte de seu antigo espaço público.

Dessa forma, o anticlericalismo estava acentuadamente presente nas obras de Sade. Ao rejeitar os posicionamentos divinos, Sade assume a postura do materialismo ateu. Além de desfragmentar teorias como a existência de deus, purgatório, inferno, punições eternas, tinha especial predileção por escarnear o papa e demais membros do clero, chegando mesmo a conceber alguns de seus contos libertinos no interior de mosteiros.

As cenas erótias eram tanto usadas como exaltação do corpo como uma crítica ácida sobre a sociedade. A imagem de padres, freiras e monges em cópula eram obrigatória e caricaturam a crítica sadiana. Os conventos eram descritos como centros de depravação e perfídia, refúgio de mulherengos, jogadores e prostitutas.

Ao romper com o discurso dialético entre vício-virtude, bem-mau, certo-errado, Sade enfrentou o poder despótico. Mas certamente não foi um revolucionário político que defendia a queda do Antigo Regime. Acreditava que os revolucionários buscavam apenas o poder porque invejavam os tiranos que ocupavam o trono. Durante a revolução, o Marquês se viu transformado em cidadão Sade e conseguiu até mesmo fazer parte de alguns organismos revolucionários, chegando mesmo a defender a democracia. Teve, por outro lado, assim como vários outros nobres, suas propriedades pilhadas e expropriadas. Contudo, teve mais sorte que outros por não ser condenado à guilhotina.

A vida e a obra de Donatien dividem opiniões até os dias atuais. Para alguns, foi um dos autores mais ousados da modernidade, capaz de revelar os anseios mais sombrios da alma humana; para outros, apenas um personagem execrável que deve ser banido e esquecido. Gustave Flaubert (1821-1880) considerou sade como um típico escritor ultracatólico, alegando que a descrição obsessia do vício tinha como único objetivo tornar a religião e a virtude mais dignas e mostrar que não existe nenhum outro caminho possível para os homens. Sem dúvida, para a maioria dos críticos, a opinião de Flaubert não foi compartilhada, sendo heterodoxa em demasia. Ainda assim, creio que a leitura sadiana deva ser incentivada, senão pelos grandiosos apelos filosóficos, ao menos por curiosidade.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.