Marco Aurélio Por Ele Mesmo

por Breno Lucano

Há alguns anos iniciei um romance em primeira pessoa sobre o filósofo que estudei em minha juventude: Marco Aurélio. Embora tenha escrito um capítulo, o projeto foi parcialmente arquivado em decorrência da busca de mais dados históricos que fossem capazes de ambientar o personagem.

Transcrevo o protótipo de minhas primeiras linhas, que serão certamente alteradas um dia...



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Deus habita os céus com as estrelas. E nós não o vemos. À noite, os astros nos revelam seu brilho, seu movimento e sua beleza. Nunca permanecem no mesmo lugar. Continuamente se deslocam, se alteram, mudam para algo novo. Tal como tudo ao nosso redor. Apreciamos a flor porque a semente deixou de existir. O mundo se renova a cada dia que amanhece a partir da dissolução de tantas pequenas coisas, muitas das quais imperceptíveis para a maioria. A mudança se faz nas cores, sabores, formas. Esses pensamentos purificam a alma das impurezas da vida.

Vindobona é meu novo refúgio. Longínquo e hostil terra. Terra das lutas e terror, da solidão e da desesperança. Aqui tomo nota de meus cinquenta e nove anos, dezenove dos quais dedicados a enganos, mentiras e brincadeiras.Nestas estranhas terras da Panônia peso quantas vezes fiz o que não queria e não fiz o que deveria.

Das guarnições militares vejo as águas do Danúbio fluírem, desaparecerem floresta adentro, obscurecerem-se ante a perversidade humana. Para sempre. E tal como estas águas se vão, igualmente o que estas terras viram irá para algum lugar, além das lembranças, além da compreensão. O que aqui ocorre deve ficar restrito, quanto muito, às distintas letras dos que se propuseram a reconstruir os fatos. Mas as palavras nunca serão capazes de descrever o que aqui se viu. Por mais que o historiador se esforce, nunca poderá descrever as faces das crianças marcomanas ao verem seus pais sendo decapitados por romanos, os esforços para contar corpos de mulheres quadas nos campos de batalha, ou ainda idosos iáziges sendo escravizados.

Certa vez Faustina perguntara-me o que era a vida. Galeno, que ouvira a indagação, tentou uma definição. Por tantos anos empreguei esforços sinceros para compreendê-la, contemplar sua magnanimidade, abraçá-la ternamente como um pai que acalenta seu filho sob o peito, tentei defendê-la inúmeras vezes, registrei sua grandeza  sob as desgraças que nos atormentam. Mas ela se esvaía em Carnuto, dissiparava-se em Sírmio, desaparecia em Vindobona. Sem que nada pudesse ser feito. Há honra em defender seu país dos invasores, dirão alguns. Dirão até que os bárbaros devem ser conquistados pela de César e de Roma. Não posso precisar o que isso significa. Também não posso precisar o que é estar à frente de um exército para repelir o inimigo e apenas reclinar a cabeça porque a paz não é possível.

No fim do último combate Pompeiano passou-me um parecer do estado de nossos homens. Muitos morreram, outros tantos estão feridos. Há algum tempo vi um homem gravemente ferido em nossos hospitais no aquartelamento de Carnuto. Os cirurgiões diziam que não havia chance de vida. Após ser saudado com o habitual Ave César!, perguntei porque havia se alistado. Disse possuir uma bela esposa e um lindo filho, mas que tinha de se distanciar deles: Roma estava em perigo. Alistou-se para defender seu povo e o grande Marco Aurélio Antonino das ameaças do Danúbio. Mas uma criança que brinca nas plantações de trigo com seu cãozinho não tem ainda condições de perceber a ordem da escolha de seu pai. E, então, despede-se com um beijo na esperança de reencontrá-lo em breve. Posta-se em frente ao altar doméstico e profere orações ensinadas pelo pai e pede aos deuses da família que as guerras cheguem ao fim e possa vê-lo mais uma vez. Mas as guerras não paravam. Mesmo depois de dois anos, elas não paravam.

Temo muitas coisas: nem sempre um Príncipe se observa do alto de sua importância. Temo pelo demasiado prolongamento das expedições na Panônia; temo pelo futuro de Roma, temo por Cômodo; e, sobretudo, temo morrer nestas terras sem ao menos ter começado a viver. Morte e vida, vida e medo, medo e desilusão. De nada vale tudo isso se, a qualquer momento, formos pegos de surpresa e precipitados nos Eliseos. Tudo fica para traz. A história e a vida dos príncipes um dia, quem sabe, serão narradas em valiosos documentos. Roma será lembrada por sua grandiosidade. Nossos filósofos recordados apenas por alguns, os poetas por outros. De uma forma ou de outra Zenão e Lucano já estão mortos. Horácio encontra-se com Hesíodo nos subterrâneos, à espera dos que ficaram. Homero hesita em se despedir senão pelos passos de Aquiles.

Toda dor e todo tormento cedem espaço à quietude do momento em que se encontra a liberdade. Aqueles com quem nos relacionamos mais intimamente, o corpo, e mesmo assim de forma nem sempre amistosa, se converterá em um amontoado de feixes musculosos, sangue e ar. O que de divino existe em nós, o que luta constantemente por supremacia, deixará para traz sua própria história, sua própria jornada, para juntar-se a outras centelhas divinas lá, onde o Um novamente se integrará. Não há dor, não há amargura. Vamos para além dos sentidos e da consciência, vamos para os deuses.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.