Memórias de Jean Meslier: Sétima Prova

por Breno Lucano

Com a "Sétima Prova", Meslier dá início a argumentação filosófica propriamente, tendo o objetivo de demonstrar os erros das diferentes opiniões dos homens acerca da existência da divindade. Para tanto, toma como ponto de partida três argumentos: o primeiro deles é oriundo de princípios metafísicos; o segundo, de princípios físicos; e o último de princípios morais.

Meslier começa relembrando que, de modo algum, como observam os teólogos, a presunção de Deus é algo universal. Vários sábios da antiguidade negavam expressamente a existência do divino. Sócrates e Aristóteles são citados como célebres questionadores. O cura cita outros nomes no transcorrer da história, como Diágoras, Pitágoras, Vanini, Teodoro - chamado "o Ateu" -, Luciano, Rabelais e até mesmo Espinosa. Ressalta que, no caso específico de Espinosa, além de questionar, não reconheceu nenhuma existência da divindade.

Prossegue o padre ateu questionando a sinceridade da fé dos devotos. Afirma que as práticas litúrgicas e o material de fé em si são frutos mais da incerteza da existência de deus. A participação de missas e cultos dos mais variados se origina no medo que o lugar-comum possui do inferno e de algum tipo de punição sobrenatural, o que, em outras palavras, demonstra dúvida. Não há alegria e espontaneidade; antes, temos temor. Caso Deus realmente existisse não haveria a necessidade de superstições e fábulas capazes mais de constranger o devoto que o induzir a uma prática realmente favorável para a sua salvação. 



Os inventores dos primeiros deuses foram homens gananciosos que se utilizaram da estupidez das massas para garantir seus postos de diretores de consciência na sociedade e, assim, obter vantagens políticas. Meslier cita a criação do deus judaico-cristão. Moisés, quando afirma ter conversado com Deus, não o fazia com o objetivo de conduzir seu povo ao Paraíso, mas obter um status numa sociedade ignorante.

O cura continua analisando a natureza. Esta está longe de ser uma obra de arte produzida, portanto, por um artífice perfeito e belo, como afirmam os teólogos. Ao contrário, ela é auto-suficiente, capaz de se portar e sustentar sem qualquer outro auxilio externo a si. Ora, se seguirmos rigorosamente a máxima deícola de que toda causa pressupõe outra causa, ou, em outras palavras, a idéia de uma obra indica sempre um obreiro, somos obrigados a concluir que Deus também seria a obra de um obreiro, e este, por sua vez, de outro, e assim sucessivamente até nos perdermos numa relação causal rumo ao infinito. Admitir essa causalidade infinita é o mesmo que concluir pela existência não de um, mas de vários deuses, cada um sendo a causa do outro. Essa é a contradição primordial quando passamos a admitir que tudo, para existir, tem que necessariamente ser criado.

Lentamente no decurso da Sétima Prova Meslier adentra no discurso metafísico por excelência quando raciocina à respeito do Ser. E o que é o Ser para Meslier? O Ser é a matéria, a substância real a partir da qual todas as coisas são formadas, cuja uma de suas características fundamentais é a eternidade. A matéria, única constituinte eterna da natureza, constitui todo o fundamento de toda a sua doutrina materialista. Com base nessa premissa, demonstra as contradições da doutrina criacionista, doutrina esta religiosa. Supor que a matéria é algo absolutamente tangível e sensível às experiências, além de universal e eterno, não sendo criado e capaz de auto-gerir seu movimento é o modo mais favorável e racional, segundo Meslier, de entender a dinâmica e os mecanismos da natureza.

De acordo com os criadores de deuses, o divino é a força capaz de mover e criar coisas. Meslier, em contrapartida, assevera que a matéria encontra mecanismos próprios de se mover e se modificar. Assim, é inútil procurar fora da matéria o princípio do seu ser e do devir. .

Se antes, Meslier se interroga pelo Ser, o identificando com a matéria, agora a própria definição de Ser. Seu raciocínio, claro, é oposto aos dos cartesianos. Meslier parte da experiência, dos sentidos, para o conceito, o que o coloca na tradição dos realistas. E, como realista, é justamente a existência tangível das coisas que propõe seu valor, sua validade. Fazendo trocadilho com o famoso cogito cartesiano, pode-se afirmar que, caso o Ser não fosse, não seríamos, não estaríamos, e também não poderíamos pensar Nele. Esse "cogito materialista" inverte a fórmula do "Penso, logo existo" para "Existo, logo penso".

Já que a matéria é eterna e o movimento um de seus atributos, afirma:

"...o ser não pode ter sido criado, o tempo não pode ter sido criado, do mesmo modo a extensão, nem o lugar ou o espaço não podem ter sido criados, e, por consequência, não há criador."

Logo, nada do que existe possuir uma causa fora de si, uma vez que criar significa originar algo do nada.

Um dado curioso que Meslier aponta na Sétima Prova é a desconcertante constatação de que Deus nunca se pronuncia de modo evidente e sensível a todos. Como isso não ocorre, não há porque crer nele. Ora, se Deus fosse realmente tão perfeito, necessariamente ele teria que apresentar uma forma sensível também perfeita. Se ele assim se apresentasse, todos creriam nele e todos os problemas humanos seriam solucionados.

Após refletir sobre a cosmologia, Meslier direciona sua atenção momentaneamente para o plano antropológico. Afirma que os homens são seres animados e, portanto, dotados de sentimentos, vontade, razão e liberdade. A causa desses atributos reside em sua própria força interna, em sua potência, o que acarreta o movimento. Tal força, por sua vez, se origina da própria matéria que compõe o homem e, portanto, de seus próprios corpos e nunca de um soberano Deus que a tudo controla. Embora elabore uma teoria atômica influenciada em Lucrécio, seus átomos são diferentes dos postulados do atomismo antigo: para o cura os átomos são divisíveis.

Antes do nascimento, o homem não existe. Não pode, portanto, sentir e pensar. Com o nascer tais atributos lhe são imputados até o momento da morte, quando, a partir daí se inicia a corrupção e desintegração do corpo ao pó. Esta é a mais antropológica das concepções de Meslier. Afirmar que existe uma vida feliz ou infeliz após a morte é grave erro, já que, não existindo mais, perde-se os atributos próprios que codificam a existência humana. As religiões, entendida como "viveiro de fanáticos", pregam exatamente o contrário e, por isso, não fazem uso do espírito crítico das Luzes. 

O clássico problema do mal do mundo aparece na Sétima Prova, exatamente no tópico 74, com o título "Os males, as misérias, os vícios e as maldades dos homens fazem evidentemente ver que não há Ser todo-poderoso, infinitamente bom e infinitamente sábio que possa impedi-los ou isso remediar". A partir daí retorna-se às reflexões cosmológicas, embora com nuances antropológicas. Contra os argumentos religiosos que buscam inocentar Deus das atrocidades da vida, o padre pondera da seguinte maneira: um Deus infinitamente bom deveria necessariamente amar o Bem, punindo os maus e favorecendo os justos. Mas como o Mal é incontestavelmente uma presença marcante no mundo, então não pode-se pensar na existência de Deus. Pergunta-se Meslier:

"... como pode um Deus como o dos cristãos permitir a lei do mais forte? Como pode a lei de Deus ser mais fraca que a dos homens?"

Caso houvesse um Deus perfeito, teríamos uma lei que homem algum seria capaz de alterar. De onde se segue que esse Deus nunca poderia ser um bom Pai, um juíz zeloso, um guia certeiro. Meslier toma de empréstimo o raciocínio de Epicuro:

"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente, o que é impossível para um Deus. Se pode e não quer, é invejoso, o que é também contrário a Deus. Se nem pode e nem quer, também não teremos um Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que não os impede?"

O padre utiliza dos argumentos do mal do mundo para explicar a existência de criaturas defeituosas, viciosas e infelizes. A suposta existência de Deus deveria aniquilar essas contingências. Mas não as aniquila, o que denota ou falta de vontade ou impotência quanto a esses problemas. A essas contingências Meslier soma as atrocidades cometidas por animais, o que o faz, talvez, o primeiro filósofo a defender aquilo que se chama modernamente de direito dos animais.

A natureza é belíssima, pensa Meslier. Mas essa beleza não é perfeita, sendo sempre passível de reformas. Aqui, temos uma oposição franca a um de seus maiores opositores, Fénelon, que não admitia imperfeição na natureza. As imperfeições são causadas meramente pelo acaso, pela fortuna. Isso ocorre porque o fluxo incessante da matéria se transforma de forma desregrada, absurda, imprevisível. Assim, tudo o que ocorre é fruto de um encontro fortuito de átomos, o que faz dos homens seres abandonados ao acaso e à necessidade trágica.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.