O Bem Como o Útil (Utilitarismo)

por Breno Lucano

John Stuart Mill
A associação moral entre o útil e o bem possui seu princípio em Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Para tanto, partem de duas perguntas primordiais?

1. Útil para quem?

2. Que é útil?

De modo geral pensa-se o utilitarismo em termos de egoísmo ético, o que responde a primeira pergunta, isto é, o útil é apenas aquilo que se vincula como uma vantagem unicamente para mim, desvinculado de uma coletividade. Assim, seria totalmente questionável um sacrifício pessoal pelo outro, pelo seu bem-estar, por sua felicidade, o que descaracteriza os pensadores dessa corrente.


Eliminado o primeiro impasse inicial do útil como aquilo que o é apenas para mim (independente do sentido objetivo de útil), torna-se possível configurar o utilitarismo como aquilo que se torna útil para o colegiado, para todos, independente da convergência com meus interesses próprios. Assim, torna-se perfeitamente possível - senão frequente - que o útil para a sociedade não entre em consonância para o útil para o próprio sujeito. Teremos, portanto, não um egoísmo ético, mas um altruísmo ético.

O utilitarismo, contudo, objetiva não ao altruísmo no sentido cristão, mas aquilo que seja útil para o maior número de pessoas. Ora, esse 'maior número de pessoas' inclui também o nosso. Isso faz com que essa corrente ética se distancie tanto do altruísmo quanto do egoísmo.

A pergunta que se faz nesse ponto é a seguinte: como conciliar os diversos interesses. Para exemplificar o utilitarismo, poderemos recordar das ofensivas militares que Israel trava atualmente na Faixa de Gaza. De um lado, temos os soldados reservistas, tanto judeus quanto palestinos, que poderiam muito bem renegar sua pátria e sua própria identidade religiosa - se considerarmos que, para eles, religião encontra-se vinculado com política -, salvaguardando sua comodidade e sua própria vida combatendo os inimigos. Porém, em nome de um utilitarismo instituído num contrato social, renega-se sua comodidade pessoal para se aliar às forças militares na ofensiva militar. Note: o útil aqui se associa com a guerra, mesmo que, para isso, se perca a vida. O útil para todos, ou, na medida do possível, para a maioria dos israelenses ou palestinos se encontra na defesa de sua própria pátria, de sua cultura e de sua religião. Caso contrário, a coletividade seria dominada pelo exército inimigo e acabaria com a estabilidade política da nação.

Vê-se que o Bem depende das consequencias. A ação será dita moral dependente das consequencias que dela acarretam, independente da intenção. Poderemos exemplificar de outro modo: um assassino invade sua casa armado afirmando que matará seu filho e pergunta por ele. Para os cristãos e Kant, deve-se indicar onde está seu filho. Para o utilitarismo, permite-se mentir contanto que isso salve a vida do filho. Note que a pureza de coração, de intenção, não é levada em consideração para a avaliação moral, mas unicamente se a ação foi capaz de atingir o maior número de pessoas.

Em relação à segunda pergunta - o que é útil -, o entendimento varia entre Bentham e Mill. Para Bentham unicamente o prazer é o critério para o útil e, portanto, para o Bem. Para Mill, o útil é a felicidade. No caso de Mill, como devemos entender que não se trata unicamente para minha própria felicidade, mas para uma felicidade geral, do maior número possível, devemos entendê-la como um Eudemonismo Social.

Os pormenores das diferenças entre os dois autores será discutida a posteriori. Aqui, tivemos apenas o objetivo de demonstrar resumidamente essa corrente moral que, embora associada a Benthan e Mill, inicia-se na verdade com Helvétius.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.