Memórias de Jean Meslier, Segunda Prova

por Breno Lucano

Dividida em doze partes, a Segunda Prova aborda a fé, a autenticidade dos milagres, as incertezas em relação à veracidade das revelações bíblicas, as contradições dos evangelhos e  a similaridade entre os pretensos milagres do cristianismo e do paganismo.

Definida por Meslier, a fé consiste numa crença cega sustentada por falsas verdades e imposturas. Toda religião que se baseie na fé não pode ser verdadeira, tampouco ser considerada uma instituição divina. E como não há religião que não tenha fé o seu esteio, todas, portanto, são falsas.



O filósofo da aldeia afirma que a fé é substituída pela razão porque a crença nunca consegue oferecer provas seguras e suficientemente convincente. Isso faz com que acreditemos sem que haja razões que sustentem o conhecimento. Duvidar e investigar a consistência racional dos dogmas é considerado pelos líderes religiosos uma afronta, um crime abominável. Deve-se, antes crer cegamente no que os líderes pregam e no que está escrito nos livros tidos como de inspiração sobrenatural.

A fé é a origem das dissenções históricas entre os homens. Muitas das guerras e de outras atrocidades cometidas na história da humanidade tê raízes na fé, ou seja, na ausência do bom senso e do uso da razão. Para Meslier, um deus misericordioso e bom não utilizaria a fé como instrumento de expressão de sua vontade. Como todas as religiões são centradas na fé, não há religião que seja verdadeiramente boa e vantajosa para o homem. Seriam todas - Meslier insiste - invenções do homem.

Nada justifica a fé, Tampouco os milagres. Não há comprovação racional e empírica. Em face da precariedade de todas as ordens das escrituras, os sinais, os fenômenos e os testemunhos referentes aos supostos milagres poderiam ser ilusões de pessoas fanáticas, artifícios de impostores ou até mesmo delírios de insanos. Uma pessoa sensata não creria, por exemplo, nos prodígios dos feiticeiros do faraó ou nas narrações como a de Moisés teria aberto o Mar Vermelho e transformado seu bastão em serpente. No fundo, os milagres relatados nos escritos judaico-cristãos não seriam mais convincentes ou menos do que os pretensos milagres dos pagãos.

Meslier não economiza ofensas à Cristo, que é chamado de "homem de nada", "homem desprezível", um "insensato fanático" e de "um miserável e infeliz patife". E se Cristo tivesse mesmo feito as excepcionalidades que lhe são atribuídas pelos evangelistas, ele teria se destacado como um homem ilustre entre os seus contemporâneos, o que não ocorreu. Assim, sua conclusão em relação aos milagres, bem como em relação aos outros acontecimentos sobrenaturais, tais como as possessões demoníacas e as ressurreições, é taxativa: tudo não passa de fábulas, de narrações fictícias e ardilosas que não possuem nenhuma plausibilidade.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.