Memórias de Jean Meslier, Primeira Prova

por Breno Lucano

A idéia de religião enquanto erro e mentira, além de dominação política, é o tema que norteia toda a primeira prova. Provas devem ser entendidas aqui por razões, motivos. Em todo o texto são criticados os homens que transformaram  leis e instituições humanas em leis divinas. Em outras palavras, Meslier critica o uso político da religião. Segundo o autor, apresenta-se geralmente como representantes de Deus, guardião de seus ensinamentos e juízes dos que Dele se distanciam. Assim, persuadem multidões e conquistam autoridade, obediência e privilégios.



Meslier faz uso da história para demonstrar de que modo a política foi travestida em religião. Cita nomes como Numa Pompilius, Zoroastro, Licurgo, Solon, Moisés, Maomé e Jesus. Todos eles lubridiaram seu povo apregoando que suas leis provinham diretamente dos seus deuses e que sua vontade representava a vontade divina. Cita Heliogábalo e Calígula como monarcas que se autoproclamaram divinos para potencializar seus poderes, mas abre ressalva aos bajuladores que também ajudavam nessa tarefa. Esse é o exemplo de Alexandre, o Grande, que foi convencido de que pertencia à estirpe divina, e de Cláudio II, que foi colocado entre os deuses pelo Senado romano.

A primeira prova prossegue com análise da bíblia, especialmente quanto à narração de que Moisés teria conversado pessoalmente com Deus. Meslier questiona essa conversassão seletiva e indaga o motivo pelo qual Deus não conversa com todos os homens em conjunto. Por que alguns apenas teriam esse privilégio e ao restante restaria apenas acreditar? Por que as aparições seriam às escondidas e nas situações mais inusitadas?

O texto reflete sobre a maneira com que os poderosos apoiam seu poder e cita substancialmente cinco razões. A primeira delas consiste na impostura e nas ameaças das religiões, como a tese teológica do direito divino dos reis e a fábula do inferno, fazendo com que, via fé, os fracos e oprimidos não  adquiram consciencia dos mecanismos sociais e politicos da dominação e exploração. A segunda, na dependência que os esclarecidos que compõem as estruturas burocráticas, como juízes, de preservar a ordem para garantir a própria sobrevivência. Terceira, diz respeito ao uso da bajulação para se perpetuar no poder. Quarta, na astúcia do governante em dissimular para promover corrupção. E finalmente a quinta razão fala da credulidade e ignorância dos povos e em sua resignação em face do poder.

Demonstrando que todas as religiões são invenções humanas, Meslier espera desvelar a realidade para os povos, pulverizando de suas consciências  e dos seus corações falsos medos e falsas esperanças.