Bakunin, Hegeliano de Esquerda

por Breno Lucano

Por vezes, os nomes de algumas personalidades históricas transcendem as próprias personagens. Tornam-se folclóricos através de feitos que são recordados pelas narrativas orais, de geração em geração. Assim nasceram os personagens Nero, Alexandre, o Grande, Ivan, o Terrível, Bakunin. Bakunin, aliás, foi tão folclórico que foi responsabilizado por ações violentas nas manifestações de rua no Rio de Janeiro em 2014 (veja o artigo clicando aqui).

Bakunin militante, mas também errante. Nasce na Rússia, estuda na Alemanha, vive na Bélgica, Inglaterra, Suíça e França. Fomenta insurreições em Praga, Dresden, Lyon, Bolonha e em varidos lugares na Europa. Filho de uma família aristocrata russa, cuja família era proprietária de uma empresa de tecidos de algodão com mais de quinhentos funcionários.



Ingressa em 1828 na Escola de Artilharia de São Petersburgo. Com quatorze anos sai da propriedade familiar  e afasta-se dos seus por cinco anos. Em pouco tempo é expulso por não usar farda e exilado. O tempo passa devagar. Traduz do alemão para o russo, do francês para o alemão, livros de estatística, história e filosofia. Na filosofia, foi iniciado por Stankevitch.

Já na capital russa, sob influência de Stankevitch, Bakunin, já em 1836, faz importantes leituras de Schelling, Richter, Hoffmann, Goethe, Schiller, Betiina von Arnim e Fichte. Kant não o agrada muito e logo o abandona. Em seguida, descobre seu divisor de águas: Hegel. Assim, num período biográfico ainda não anarquista, abraça a tese da encarnação do Espírito e da Razão na História. Em suas Confissões confessa ter posto toda a sua existência na época sob a égide de Hegel.

Algum tempo depois, flerta com os hegelianos de esquerda, que se opõe aos hegelianos de direita na qual ele abraçava. Assim, se debruça em Feuerbach e conhece Stirner. Mesmo após sua ruptura com Hegel, Bakunin continuará hegeliano por toda a vida, afirmando dialeticamente que toda destruição é construção.

É difícil seguir Bakunin e seu ímpeto revolucionário. Assim que se constrói uma barricada, ele está lá. Surge um indício de revolta em algum lugar, ele vai para lá, corre atrás da pólvora, carrega fuzis, corre, recua, pragueja  e afirma que da próxima vez tudo dará certo. Inventário de suas insurreições: Paris em fevereiro de 1848; Praga, junho do mesmo ano; Dresden, maio de 1849; Lyon, setembro de 1870. O governo russo o condena à morte, mas a pena é convertida em prisão pertpétua, já que a pena capital havia sido abolida. Nessa época, Bakunin é um herói que a Europa inteira conhece.

O revolucionário utiliza a anarquia também em seu sentido menos nobre e trivial, como desordem, confusão, contradição, balbúrdia. Dele podemos elencar: o ateísmo, enquanto negação radical de qualquer divindade e, em especial, do cristianismo, e abolição da Igreja; o materialismo, na qual a realidade é puro composto de matéria, sendo inexistente o espírito não material; socialismo, em substituição do comunismo, que pressupõe o Estado; federalismo, abolição de todas as fronteiras e limites; libertarismo, amor à liberdade associada à justiça e à igualdade; feminismo, fim das diferenças entre homens e mulheres; igualitarismo, fim das heranças; anarquismo, extirpar radicalmente todo poder, toda autoridade, toda força na qual se baseia o mundo capitalista.

Em julho de 1876 morre. A notícia espalha-se por toda a Europa, onde Bakunin é amado, conhecido e celebrado - enquanto Marx é conhecido apenas num círculo restrito. O autor de Capital passará o restante da vida tentando reverter a situação - e tendo sucesso nisso...

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.