Por Que Valorizamos as Coisas?

por Breno Lucano

Os atos morais carecem de uma escolha entre tantos atos possíveis. Dizer que se escolho A em detrimento de B ou C significa que a A damos preferência. A é mais valioso que B ou C. Por isso deixamos de lado B e C, que são menos valiosos. Ter de escolher supõe, portanto, que preferimos o mais valioso ao menos valioso moralmente. Ter um conteúdo axiológico (de axios, em grego, valor) não significa somente que consideramos a conduta boa ou positiva, digna de apreço ou de louvor, do ponto de vista moral; significa também que pode ser má, digna de condenação ou censura, ou negativa do ponto de vista moral. Seja como for, a avaliação se dá sempre em termos axiológicos.

Se o julgar e o consequente optar dependem de um valor, que valor é esse?  Como defini-lo? Como escolher uma entre tantas possibilidades viáveis?  Por que as coisas valem? Essas são questões que entram de encontro com duas teorias éticas: o objetivismo axiológico e o subjetivismo axiológico.



As coisas podem valer porque eu as desejo, minhas necessidades e meus interesses conferem ao objeto valor. Nesse tocante temos o subjetivismo ético, que também pode ser chamado de psicologismo axiológico. Nesse terreno o objeto valoroso é reduzido a um estado mental, a uma vivência pessoal. Isso ocorre porque as coisas, para existir, necessitam de  reações psíquicas que garantam sua própria existência. Não desejamos o objeto porque ele vale, mas porque o desejamos e necessitamos. Dito de outra forma: o que me agrada e me dá satisfação é o que vale. Assim, dentre tantas possibilidades, tendo em vista as próprias vivências do homem, tal objeto terá maior ou menor valor que outro.

O subjetivismo axiológico transfere valor do objeto para o sujeito, fazendo com que o modo específico com que o objeto o afete fará com que ele seja preterido. Esse objeto pode ser bela não pelo que é de fato, mas pela forma como é percebida, pela forma com que afeta o sujeito, pelo prazer que o proporciona. Tal é a tese defendida por teóricos como R. B. Perry, I. A. Richards, Charles  Stevenson e Alfred Ayer.

Um pintor passa a vida inteira entretido em telas e aquarelas. Ele se especializa. Escolhe entre um e outro tom de cor, entre alguns tipos diferentes de tinta. Traça um contorno específico, que pode ou não ser abstrato. As configurações plásticas criadas mostram algo dele. De certa forma, é ele e por isso ela tem valor. As telas, por serem extensões do pintor, representam ele. O valor é alocado na criação porque com ele possui envolvimento. Possui uma experiência que, talvez, um agente de saúde não possua. E, por isso, não atribui valor.

Opostamente temos o objetivismo axiológico. Ele se inaugura ainda com Platão com sua metafísica. Aqui o belo existe como elemento supra-empírico, atemporal, acima de qualquer experiementação subjetiva. Ele existe, não como vivência, mas como estrutura do real. Os valores constituem um reino particular e subsistem por si próprios, sendo imutáveis. Esses valores estão numa relação especial com as coisas que chamamos bens. Buscamos as coisas não porque vivenciamos que são bens, mas porque a percebemos objetivamente como tais.

Os valores existem por si e em si, independente do sujeito que o observa. Ocorre uma cisão entre valor e bem e entre valor e existência humana. De um lado a coisa que não mais é vista como valorosa para o homem; de outro, a coisa que concentra substancialmente em si um valor. O objetivismo é sustentado, finalmente, por Max Scheler e Nicolai Hartmann.

A configuração axiológica do objetivismo pode se dar em termos econômicos - algo possui valor pelo seu preço no mercado. Nesses termos, dizemos que algo vale mais que outra coisa, porque a primeira é mais cara que a segunda. O outro vale mais que o bronze. Mas o valor também pode se dar em determinados comportamentos, como a lealdade e a dignidade. Por atribuir maior valor a esses comportamentos, podemos afirmar que são menos valiosos que outros comportamentos como a deslealdade e a mesquinhez. De qualquer modo, esses valores e desvalores são em detrimento da própria estrutura da coisa, que qualquer relação possui com a experiência humana.

   

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.