Relatividade e Filosofia

por Breno Lucano

É comum os professores encontrarem a seguinte situação: chega em sala de aula, expõe um assunto qualquer e, ao final, pergunta aos seus alunos suas percepções e tem a resposta de que tudo é relativo. Após uma hora de aula o aluno vai pra casa pensando que o professor tem a opinião dele e ele tem outra.

Isso ocorre porquanto se confunde não raro relativismo e relatividade. Relativismo é uma postura filosófica que entende que todas as formas de pensar são válidas, assim como os valores e comportamentos. O relativismo é uma espécie de negação de critérios absolutos que vê tudo como circunstancial, circunscrito a uma época e a um tempo e cultura, sendo tangido pelo subjetivismo. Em outras palavras, o relativismo é uma recusa de uma única verdade e oferece o contra-ponto do positivismo, onde a Verdade é a ciência.



A filosofia surge como uma crítica através do qual o relativismo se desfaz. Ora, se tudo é possível porque depende do sujeito, o relativismo se demonstra como uma crítica que não se torna possível; ou melhor, como um amortecimento da crítica e da razão. Ele oferece uma impossibilidade de se ir além sobre um tema, já que todas as opiniões são iguais.

A perspectiva relativista, seja em quaisquer de suas modalidades epistemológicas, padece de certa auto-contradição. A afirmação de que não há verdade se torna contraditório porque há uma verdade, que não há verdade. Quando se diz que não é possível um conhecimento objetivo e verdadeiro acerca de algo, encontramos uma dificuldade porque ao se afirmar isso toma-se de empréstimo critérios objetivos para tal afirmação.

A apreensão do verdadeiro cria uma espécie de autoritarismo já que aniquila o que não é verdadeiro. Quando se empreende um encadeamento lógico que chegue à verdade, por consequência todas as outras formas de verdade se tornam falsas. Ocorre supressão das possibilidades. Platão fez muito isso, ao distinguir o que é do que não-é. Isso se torna curioso quando pensamos no sentido moderno a filosofia enquanto defesa da democracia. Em seu sentido clássico, a filosofia era um ataque da democracia: não existem várias verdades e opiniões, mas apenas uma única.

Mas o que é democracia senão a soma da maioria das opiniões? A verdade e os valores que observam a vida social são escolhidos pela maioria. Quando fazemos um referendo para verificar a posição da sociedade sobre se ela aceita ou não o casamento igualitário, usamos democracia. Se a maioria diz que é à favor, o casamento igualitário se torna um fato. A verdade é numérica. E vemos na história como a maioria se tornou um problema ao se associar a eventos destrutivos, como a xenofobia.

A democracia antiga se torna algo diferente da moderna porquanto a decisão da maioria era a única válida. Na democracia moderna algo mudou. Ela se torna válida se e somente se as minorias não forem excluídas. As opiniões, todas elas, eram seriam igualmente válidas.

O encadeamento lógico  de que padece o relativismo sofre maior influência nas ciências naturais que, por herança positivista, se baseiam mais em observação, objetivação e fatos. E contra fatos não há relatividade. Uma árvore será sempre uma árvore e uma pedra, uma pedra. Quando se pretende matematizar o universo isso se torna ainda mais enfático, já que o real é um número, uma proporção. Por outro lado, quando falamos em ciências humanas algo muda. Temos maior fragilidade epistemológica que faz com que o pesquisador não se torne tão objetivo porque ele mesmo, ao investigar a sociedade, faz parte da sociedade. O pesquisador é ele mesmo investigado. Não ocorre o natural distanciamento entre sujeito e objeto que seja capaz de produz um conhecimento mais fidedigno e legítimo. Quando o filósofo reflete sobre ética, por exemplo, ele está também refletindo sobre si, porquanto o homem é um ser ético.

A dificuldade se acentua quando falamos em antropologia enquanto uma ciência que parte da diversidade. A relatividade aqui se faz presente pelo sentido de cultura, etnia, grupamentos sociais. Observando os diversos grupos sociais que se têm notícia parece muito notório que alguns conceitos, como o de liberdade e igualdade, são mais propícios à condição humana que outros, como a desigualdade e a escravidão. Assim, talvez seja legítima a crítica a alguns aspectos de culturas diversas. Um aborígene da Austrália, por exemplo, pode se aproveitar do desenvolvimento científico com vacinas. Beber água poluída pode trazer prejuízos à saúde e levar à morte, mesmo que outra cultura a veja como sagrada.

Seja como for, sendo a verdade una ou múltipla, o campo permanece aberto. E a filosofia se torna um caminho através do qual a reflexão se torna possível.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.