Marco Aurélio e a Corrupção Política

Marco Aurélio, Museu do Louvre
por Breno Lucano

Há alguns anos surgiu no Brasil intensa onda de retaliação à corrupção política que desembocou em diversos movimentos  sociais direitistas, como Movimento Brasil Livre e Escola Sem Partido. Cansados da antigo panorama presente no espectro político vigente, pretende-se que que possa fazer política sem associações partidárias; ou melhor, que a existência de partidos torna a defesa dos interesses do país um obstáculo. Ou seja, para que se possa debelar a corrupção deve-se, em última análise, igualmente anular o poder dos partidos, torná-los inexistentes.

O evento corrupção, contudo, não é exclusivo do Brasil. Temos visto em jornais eventos semelhantes na Coréia do Sul, China e EUA. Variados autores, especialmente na sociologia, abordam o assunto. Mas e o que Marco Aurélio, o imperador-filósofo, teria a dizer?



Antes de qualquer análise filosófica sobre o tema, devemos recordar que Marco Aurélio foi Imperador de Roma de 161 a 180 e, como tal, conduziu sua nação em momentos críticos na história da Europa, cruzando três guerras e vivendo numa corte permeada de intrigas e de usurpadores que pretendiam angariar o trono. Temos também documentada a traição de pessoas próximas, como de sua esposa Faustina Menor e a incapacidade de seu filho Cômodo de sucedê-lo no trono. Até então nada de novo, se considerarmos que esses eventos sempre ocorreram, ocorrem ainda hoje e sempre continuarão a existir. Assassinatos, usurpações, traições e abuso de poder são realidades que Marco Aurélio conheceu no exercício de Imperador e que ainda vemos em diversas esferas nas sociedades atuais.

Como um bom estóico que é, dirá Marco Aurélio à respeito da Natureza:


"“φυσικοῦ τινος ἔργου σημαντικόν· ἢ καὶ τὸ τοὺς στάχυας θερισθῆναι δύσφημον"


"Nada é agourento quando se refere às obras da Natureza". (Med, XI: 34)


À grosso modo, podemos entender Natureza como o curso natural dos acontecimentos, segundo o extenso trabalho Os Estóicos, de Brad Inwood. E, desde que, tudo o que ocorre é necessariamente bom porquanto decorre da Razão da qual o mundo faz parte, a Natureza se torna a própria expressão do Bem. Assim, Natureza, Bem, Destino e Razão formam um quadrilátero que se confunde e que demarca toda a cosmologia de Marco Aurélio.

Claro que não poderíamos pensar que Marco Aurélio entenderia a corrupção como algo positivo somente porque ela existe como um evento. O Imperador viu, a título de exemplo, a revolta de Avídio Cássio em 175 que reclamava o título imperial para si. Tão logo a revolta fora debelada e o rebelde morto, Marco Aurélio se lamenta por sua morte. A Razão aureliana daria a entender que a revolta foi necessária em termos cosmológicos, assim como a morte de Avídio. Da mesma forma, Marco poderia ver com bons olhos a corrupção que envolve a Petrobrás e empreender forças para coibir a Operação Lava Jato.

É correto afirmar que a cosmologia aureliana abrange certo nível de fatalismo, mas seria erro interpretar esse fatalismo sem que houvesse algum tipo de responsabilidade pessoal. Dirá o Imperador:


"τὸ δὲ εὔμοιρος, ἀγαθὴν μοῖραν σεαυτῷ ἀπονείμας· ἀγαθὴ δὲ μοῖρα· ἀγαθαὶ τροπαὶ ψυχῆς, ἀγαθαὶ ὁρμαί, ἀγαθαὶ πράξεις."

"Feliz é o homem que dá um bom destino a si mesmo. É com boas disposições, boas inclinações, boas ações que se faz um bom destino." (Med. V: 37)

Noutras palavras: há duas forças que interpelam a ação humana. De um lado temos a necessidade que arrasta a existência de um lado a outro sem que a vontade possua qualquer repercussão. É o antigo culto da deusa romana Fortuna que aqui nos referimos, muito presente em Sêneca. De outro lado, as disposições próprias e intrínsecas do homem promovem seu futuro. Aquele que se nega a estudar pode pensar que, se for da vontade do  destino, ele passará na prova, estudando ou não. Ou que o corrupto se tornaria inevitavelmente corrupto porque essa é a vontade de sua própria constituição interna, algo que inclui força psíquica, ambiente cultural, educação, estrutura familiar. Mas essa parece ser a tese contrária ao entendimento de Marco Aurélio, que repete em suas Meditações uma antiga tese de Crisipo. Para Crisipo, conhecido por ser o maior sistemático do Estoicismo e o segundo maior lógico da Antiguidade - perdendo apenas para Aristóteles -, a vontade pessoal converge com a vontade do mundo para o resultado final necessário. Aquele que não estuda provavelmente não passará na prova porque lhe falta a vontade necessária que levará à pontuação pretendida. O estudo lhe conduzirá à uma boa prova, independente da vontade do mundo. A vontade do político em negar uma propina pode ser maior que a necessidade que o conduz a aceitá-la, apesar de seu histórico.

Talvez o pensamento desencantado do mundo possa nos fazer desacreditar nos sistemas políticos, entendendo-os como algo negativo e que se deve repelir. E é aqui que Marco Aurélio nos remete não ao espírito pessimista que a posteridade erroneamente imputou aos estóicos, mas a uma noção esperançosa do futuro do homem, crendo em sua incrível capacidade de fazer boas escolhas e findando numa sociedade mais justa para todos.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.