Dia de São Francisco, Nosso Padroeiro

por Breno Lucano

Hoje os franciscanos de todo o mundo se encontram em festa. É o dia de nosso Seráfico Pai São Francisco. Sim, um dia de festa, mas também de reflexão sobre a vida de um homem ímpar que continua lembrado por oito séculos após sua morte e continuamente elogiado por vários segmentos religiosos.

Esta época do ano sempre me faz lembrar de meus tempos como seminarista franciscano. Foi um tempo propício ao auto-conhecimento, ao trabalho, ao estudo e à meditação. Fazia coisas que pouco se faz no século porque não temos tempo. Pensava coisas que pouco se pensa no século porque não temos tempo. Vivi coisas que poucas pessoas vivem porque não se tem tempo.

Como de costume, acordava às 5: 30 da manhã para ir meditar, sozinho, no campo que cercava o seminário. A essa hora, todos estavam dormindo, mas lá estava eu, sozinho, vendo o sol nascer e pensando nos problemas da vida comum. Pensava o quanto medíocre eu era por tantas coisas que fizera ou deixara de fazer, por quanto tempo que perdera até então por não me dar a oportunidade. Ao mesmo tempo quando via o modo como Francisco vivera Jesus, mesmo com todas as dificuldades de seu tempo, observava como a vida poderia ser maravilhosa. Não me refiro aqui em sair correndo pelo campo como no romântico filme de Zefirelli, mas em abraçar e aproveitar as oportunidades que nos são continuamente concedidas. Olhar o sol nascer, respirar o ar, dizer "eu o amo". Coisas simples que passam porque não conseguimos alcançar.


Clara dizia às suas irmãs para que não perdêssemos de foco o ponto de partida e creio que aqui esteja o segredo.  Algumas vezes na vida - apenas algumas - somos levados a pensar que tudo poderia ser diferente e somos impulsionados pela empolgação. Algum tempo depois, quando nos damos conta das dificuldades do emprego, das contas para pagar, da solidão, do medo, perdemos o ponto de partida. Mas será que esse é o curso correto, o melhor modo de viver?

Costumo dizer que corremos muito. Corremos para conseguir a promoção, para não perder o horário, para levar os filhos na escola. Essa é a dimensão dinâmica a que somos chamados a viver no século, tendo em vista a sociedade industrializada do século XXI. Prosperidade - nunca salvação, mas prosperidade - é o que se busca de modo genérico. E a correria parte em busca dessa prosperidade. Por outro lado, vemos a enigmática sentença escrita por Francisco em seu Testamento: "E mais não queríamos ter."

A forma de vida, o modus vivendi franciscano, nos faz refletir, sobretudo, sobre a brevidade da vida.  Poucos se dão conta, mas estamos de passagem. Somos peregrinos em nossa própria casa, nosso trabalho, nossa família. E olhar para o mundo como alguém que pode de um momento para o outro não existir nos faz tocar outra dimensão até então não conhecida: a compaixão. "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal", dirá Francisco pouco antes de partir, nu, deitado no chão, com os frades chorando ao redor. Poético, sim, mas também reflexivo. Somos humanos que pensam viver como deuses, dirá um poeta antigo. E quando se perde a esfera da mortalidade, se perde por consequência o que de mais importante há no homem, sua fragilidade, sua capacidade de chorar, de ser homem.

Este é o Francisco arquétipo que, por sua vez, é um sub-arquétipo de Jesus. O grande que tudo podia se reduz às misérias, se torna simples, pequeno, "submisso a todos" nas palavras de Francisco no Testamento. E submisso porque Menor, aquele que nada pode porque não é ninguém, um excluído entre tantos outros. Um negro, um gay, um operário, um doente, alguém que tenta apenas sobreviver e extrai forças quase sobrenaturais para chegar em casa após mais um dia de trabalho e simplesmente dar um sorriso e brincar com os filhos.

Trata-se apenas de um personagem folclórico do século XIII, distante demais para contemplar a complexidade dos tempos atuais. Sim, de certa forma, apenas! Não temos mais bardos, cavalheiros com armaduras ou congêneres. Mas as dificuldades humanas são as mesmas. Tanto no século XIII quanto agora tem-se desigualdades, exclusão, sofrimento, dor. Nesse sentido, Francisco oferece uma resposta que  se encontra além da historicidade, num lugar onde nem a cultura nem os padrões sociais podem interferir.

Francisco nos torna pessoas melhores. Basta recordar seu belo poema Elogio das Virtudes e entender o quão distante estamos de tudo o que queremos de fato: a felicidade! Esta, aliás, é uma linguagem entendida por todos. Todos, desde o sultão Al Kamel quanto o mais simples dos frades desejam a mesma coisa, desde o menor e a lavadeira do rio São Francisco até os grandes executivos que controlam a máquina do Estado.

Já o expus em outras oportunidades: sou profundamente grato por tudo o que pude aprender com os Frades Menores. Mesmo hoje ainda tento viver, mesmo no século, aquilo que um dia prometi a um frade que vive em meu coração: nunca esqueceria o que vivi em Ituporanga, Santa Catarina. Eu seria para sempre um frade sem hábito, nunca perderia meu ponto de partida. Eu seria apenas eu mesmo



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.