Lúcifer e Miguel - Segundo Diálogo

Por Breno Lucano



UMA METÁFORA DA CONDIÇÃO HUMANA
SEGUNDO DIÁLOGO


MIGUEL: Do caos deus cria o céu e a terra. Faz surgir a luz e a segrega da escuridão. Cria as águas que estão nos oceanos, lagos e rios. Nos pastos, árvores dispersas, flores coloridas e ervas. Sol e lua para informar aos homens quando teriam que trabalhar e descansar. Animais por toda parte.

LÚCIFER: E o melhor ficou para o final.

MIGUEL: Após certificar-se de que nada faltava em sua obra, cria do barro aquele que tudo deveria governar e submeter: o homem. E viu que aquilo era bom.

LÚCIFER: Sim, do barro. O elemento primordial.

MIGUEL: A matriz do mundo.



LÚCIFER: De certa forma, não apenas a matriz. Ela é a substância que engendra tudo o que vemos. cria o homem, não há dúvida, mas unicamente na condição de ter originado cada detalhe, cada minúncia do mundo que seria habitado por Adão, Eva e seus descendentes. A criação do homem apenas foi possível porque, antes, as coisas já existiam.

MIGUEL: E com perfeição.

LÚCIFER: Mas continuemos, irmão. A recordação dos primórdios me infunde euforia.

MIGUEL: Cada coisa não foi criada apartada das outras. Existe antes uma conexão, um laço entre cada coisa criada, de modo a formar um organismo vivo. Assim se torna impossível pensar nesse complexo sistema que é o mundo se não pensarmos nas inúmeras conexões que sucederam para que ele estivesse ali: como num efeito cascata.

LÚCIFER: Imaginamos repetidamente a imagem de um dominó. Todos enfileirados. Quando o primeiro cai, todos caem como em cascata. Isso demonstra como todo o organismo está conectado, relacionado. Assim como o mundo. Vejamos, caríssimo irmão: "B" origina "C". Mas isso apenas ocorre porque "B" foi originado por "A" anteriormente. Assim até o infinito, até deus, o motor dos primórdios.

MIGUEL: Precisamente. Veja: essa interligação entre as coisas no mundo é conduzida pela alteração de uma coisa em outra, para que possa alcançar um fim específico. A finalidade é o alvo secreto de tudo o que existe e não há nada capaz de lhe escapar.

LÚCIFER: Quando deus iniciou a criação, havia um alvo desejado. Tudo o que se faz, se faz pensando nos resultados, na conclusão. Quando se decidiu pela criação empregou métodos específicos. Assim como o escultor que utiliza do mármore e da pedra bruta - em outras palavras, o barro - para levar adiante seu processo demiúrgico. É necessário remover os excessos, dilapidar as arestas, modelar as formas, propor contornos na escultura. Assim também deus.

MIGUEL: Cada coisa criada, por peculariedades que lhe são próprias, tende pois, para sua própria finalidade. Nada há que não escape dessa trama de causas e efeitos. Tudo muda para que não precise mais mudar, à medida em que alcança sua realização e plenificação. Ora, o que é a capacidade de mudar senão indícios de incompletude, de imperfeição? E, se levarmos em conta que apenas nosso Pai é perfeito, tudo vai de encontro a ele, para se aperfeiçoar, se completar e, logo, não precisar mais mudar.

LÚCIFER: Contudo, resta uma pergunta ainda sem resposta. De onde vem a capacidade de criar? O que levou deus a sair de seu estado estático de constância  a se empenhar no movimento da criação?

MIGUEL: Os anjos especulam sobre isso até hoje. Variadas são as teorias e as visões que respondem, ao menos parcialmente, esta indagação. Muitos apostarão no amor.

LÚCIFER: E de que amor falamos? O do entrelaçamento de corpos, do qual um homem gera outro homem?

MIGUEL: Não, Lúcifer. Decerto que no processo procriativo, os homens não precisam mais da intercessão divina. Tanto o nascimento quanto a morte são condições biológicas próprias do homem e, portanto, isento de deus. Os únicos homens criados por nosso pai foram os primordiais. Sua prole se reproduziu por gerações apenas por recursos próprios.


LÚCIFER: Nada mais certeiro. Uma vez criados, os homens andam sozinhos. Dão a si o destino que quiserem ou poderem.

MIGUEL: Não se enganem os anjos e homens: o amor é o motor do movimento, segundo alguns afirmam. Imerso num ímpeto de amor, deus transcende a perenidade e se põe em seu processo demiúrgico. Para tanto, se utiliza de uma fôrma. Como uma criança na raia que utiliza balde e conchas de plástico para construir seu castelo. Em se tratando de deus, a fôrma evidentemente não faz parte do mundo. A fôrma é a linguagem, o conceito. Para criar uma cadeira, o escultor imagina oque será uma cadeira, pensa nos detalhes, atribui cores próprias, grandezas que a fazem cadeira. Mas ele não pensa apenas na cadeira. Também pensa qual será sua utilidade. A que finalidade a cadeira se destina. Quem a usará? Quando? Onde? Com deus é a mesma coisa.

LÚCIFER: Não sobraria, portanto, qualquer possibilidade de caos na criação?

MIGUEL: Conhece a sentença: "à imagem e semelhança". O mundo de deus é ordenado, causal, fatal. E o amor é o motor para que tudo ocorra. Alguns anjos chegam mesmo a afirmar que tudo deriva à deus por necessidade. Vejamos: se tudo muda para que não tenha que mudar, aquilo que muda deseja o estado de deus, a perenidade. Se deus se faz pela perfeição, constância, imutabilidade, perenidade, serenidade, isento de qualquer acidente, então essa chegada à deus é a eliminação da potência. Isso porque a potencialidade é o que determina a mudança. Deus é, ao mesmo tempo, o ponto de saída e o alvo de tudo.

LÚCIFER: O que dizem outros anjos?

MIGUEL: Imagine, óh!, Estrela da Manhã, por alguns instantes, uma flor.

LÚCIFER: Sim.

MIGUEL: Ela poderá se reproduzir enquanto broto?

LÚCIFER: Não. Ainda não possui condições procriativas.

MIGUEL: Exato! Agora pense numa criança. Ela poderá se reproduzir?

LÚCIFER: Não, da mesma forma.

MIGUEL: Perceba: O homem e a flor podem se reproduzir, mas não o menino e o broto. Isso ocorre por ausência de condições, como você o diz, ou, em outras palavras, por imperfeição, incompletude. Para que algo possa fazer outro de si, é necessário que, antes, a coisa assuma sua identidade, sua completa e perfeita forma. Assim o homem gera a criança e a flor o broto, tudo sem intercessão divina. A geração assume aqui a imagem daquilo que é porque já deixou de vir a ser: eliminação das potencialidades e da capacidade de movimento. Assim, não é o amor o motor do mundo, aquilo que o move, mas aquilo em que as coisas se tornam.

LÚCIFER: Irmão, vejamos agora outro ponto, algo mais importante, algo que realmente motivou a rebelião. Não tenho dúvida alguma sobre as estórias que contam sobre a criação, mas, por alguns momentos, passemos a pensar sobre as consequências futuras e a perda do Jardim do Éden. Pensemos sobre a criatura mais amada por nosso pai, o homem. E sobre como, você e os seus, nos acusaram injustamente por rebelião. Pensemos na vida.


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Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.