Filme Porno na Praia, Pode?

por Breno Lucano

Alguns, como eu, gostam de passar uma bela tarde caminhando à beira da praia, especialmente se deserta. E eis que, alguns metros à frente, nos deparamos com um set de filmagem. Mas não se trata de um filme de drama ou uma aventura; antes, um filme adulto. O ocorrido se deu na praia do Recreio dos Bandeirantes, na cidade do Rio. A notícia se espalhou em vários sites de notícias, como o do G1 (clique aqui e veja).

E o que parecia um simples passei se transfigura numa chuva de opiniões, muitas das quais de teor pouco amistosa. "É um absurdo!", dirão alguns. "E se houvesse crianças...", indagarão outros. Mas de que forma poderíamos traçar uma investigação filosófica sobre o tema?



Antes de tudo deve-se entender que, como qualquer investigação filosófica, esse também não é um tema que se esgota por ele mesmo. Não se tem por finalidade uma simples categorização de plebiscito que define o sim ou o não. O filósofo não diz sim ou não. Investiga. Tenta alcançar o conhecimento a partir de uma metodologia própria, longe do senso-comum.

Um dos filósofos que me veio à mente na tentativa de refletir o tema foi Onfray. Para o filósofo francês, o pensamento ocidental é nitidamente dualizado. De um lado, temos o pensamento canônico oficial da filosofia, todo tingido por Platão, e suas consequências posteriores que se sustentam sob a metafísica. De outro, temos o pensamento não oficial, pouco estudado, quase nunca lembrado e com escassez de trabalhos acadêmicos, os materialistas.

De Platão, temos seus derivados em todo o medievo e que desemboca em Descartes e Leibiniz, depois Kant e Rousseau. Trata-se de pensar o mundo partido. O material existe, mas apenas como cópia defeituosa do etéreo, que é perfeito, de onde deriva o Bem ético. Os nomes podem variar de Monadas a Espírito, ou simplesmente Deus: a idéia é sempre de uma entidade metafísicamente superior capaz de regular o mundo. Não importa o nome. O certo é que ele é usado como origem do pudor, da moral, de um modus operandi específico.

Mas existem também os que pensam o mundo desprovido de magia, os materialistas. É o caso de Epicuro - mesmo criando uma cosmologia que comporta os deuses, porém sem finalidade -, Aristipo, Lucano, Meslier, La Mettrie. Aqui Deus cede espaço para a matéria enquanto finalidade última, como parâmetro para o agir, como o único Bem que se pode exprimir.

Essa dicotomia, conforme Onfray, foi capaz de dilacerar o corpóreo, já que material. A única coisa capaz de se buscar e que possui finalidade social é o que for relacionado com o espírito, com as virtudes celestes, com as tendências próprias da divindade. Deus é o critério. Deus é. Logo, a matéria, não sendo Deus, nada pode. Ela é passageira, evanesce, se corrompe. A matéria é apenas um ponto na eternidade. A matéria não é. Não sendo, isto é, não existindo de fato senão como pontualidade no tempo, dela nada deriva que seja realmente satisfatório para o homem e para o mundo. O mundo, enquanto estrutura física de sustentação do real, toma conotação célere, assim como o corpo que é apenas a matéria delimitada.

Onfray, em seus variados livros, narra de que modo essa mentalidade partida se tornou predominante no Ocidente e ainda de que modo que o ideal do Espírito se tornou dominante. Em seu Tratado de Ateologia narra esses eventos no decorrer da história, desde  a presença de crucifixos nos tribunais e até a construção "Deus Seja Louvado" nas cédulas.

A ascese do material para o espiritual pode explicar o que houve na praia do Recreio. É certo que a defesa do nome das crianças pode ser encontrada em vários discursos tradicionalistas. "Defendam as crianças" e "... os pequenos herdarão a terra" são alguns exemplos. São o carro-chefe de uma ideologia simples e poderosa.  Mas  não apenas.

Sendo o corpo preterido em razão de uma ascenção rumo aos céus, tudo o que dele decorre igualmente possui simbologia inerente. Secreções e fluídos, por serem decorrentes do corpo são nojentos, asquerosos. É um insulto chamar o outro de merda, porque as fezes são derivadas dos restantes expelidas pelo corpo. Suor, urina e esperma são igualmente denegridos. O suor mela, a urina possui odor forte demais e o esperma é grudento. Não condizem com o status de santidade que apenas a castidade e o jejum podem conferir. E quando se trata de trocas de fluídos em público, como numa praia, talvez seja ainda pior.

A realização das funções corporais devem ser realizadas com suavidade, quando não com a elegância do reservado. Não é de bom tom urinar na rua. No Rio, isso produz até multa. O banho deve ser a sós para não expor a nudez pecaminosa capaz de atiçar os desejos.

O sexo deve ser escondido. Ele envolve uma interação de carne-carne, desejos, saliva, esperma. A respiração se torna ofegante. O suor é expelido. Dependendo da ocasião e dos amantes, temos urina, fezes. Temos uma combinação do péssimo com o horror de um corpo que luta para dizer que está vivo, que pulsa e grita no tempo.

Não deixo de recordar de meu caro Diógenes, aquele que se masturbava na Ágora de Atenas, em público, para todos verem que nada havia de errado. Afirmava que o sexo, por ser natural, é desejado pela própria ordem das coisas. É o mundo que, agonizando, diz: "ainda estou aqui, apesar da ascese".




Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.