Ciencia, Religião e Neo-Ateísmo

por Breno Lucano

Temos visto, especialmente no Brasil em função das discussões entre bancada evangélica e grupos sociais que requerem direitos civis, grave disputa teórica e política entre religiosos e ateus. Ou melhor ainda, neo-ateus. Se, por um lado, temos grupos que pretendem a teocratização das relações, por outro temos uma força que cresce gradativamente, á partir do Iluminismo, e que supõe movimento inverso. Desejam mais do que o Estado laico, desejam o estado ateu.

Como expliquei no vídeo do ateísmo - clique aqui para assisti-lo -, este trata-se de um movimento que cresce gradativamente com o decorrer dos séculos e começa a tomar repercussão no mundo das idéias a partir de Jean Meslier e La Mettrie, cruzando os grandes nomes de Holbach e Sade, além de Diderot. E, finalmente, explode com o nome de Nietzsche com o seu famoso 'deus está morto'. No século XIX entra em cena Comte, com seu aparato cientificista, que faz reflexões importantes no campo epistemológico e lança mão de um endeusamento do empirismo como único critério válido de conhecimento. Deus realmente morre nesse momento.





No século XX surgem nomes importantes do ateísmo - ou neo-ateísmo - como Daniel Dennett e Michel Onfray. Vale lembrar, contudo, que a forma com que se fazem as críticas atualmente é bem diversa daquela que se faziam antes os Iluministas, apesar de Onfray possuir graves tendencias Iluministas. Ocorre que apartir desse momento, Deus, estando fora das discurssões, não passa a ser mais importante objeto de reflexao. Uma vez morto, Deus é sepultado. Um momento da história da filosofia se passa, e poucos são os autores que realmente se ocupam de um ateísmo militante. A questão agora passa a ser a validação dos critérios do conhecimento; a epistemologia.

A grosso modo, os filósofos materialistas atuais empobrecem a narrativa mítica como sendo um estágio anterior do desenvolvimento humano. Dizem, pode-se procurar os deuses no Olimpo, mas eles não estarão lá. Os deuses existem tanto quanto as histórias infantis que nossas avós contavam para dar medo mas que ninguém se recorda quando envelhece. Ocorre o mesmo quando falamos na arca de Noé ou a divisão do mar por Moisés. Ou seja, é comum que se tomem os mitos não como narrativas simbólicas que desenvolvem a psique e a própria existencia humana, mas como algo que não se pretendem; ser elementos descritivos e empíricos da realidade.

Esses autores, aliás, se assemelham aos religiosos fundamentalistas por sua leitura literal, na mesma plataforma. Vemos comumente autores religiosos, e até mesmo documentários americanos, afirmando ter encontrado indícios da torre de babel e coisas afins e filósofos neo-ateus se utilizando da mesma leitura literal - nao simbólica - para defender o absurdo das escrituras, geralmente Levíticos. Mas tal forma de defender o ateísmo possui revés; alem de categorizar o outro como um bobo ingenuo, capaz de crer que alguem pode andar sobre as águas e transformar água em vinho, faz com que a Bíblia assuma uma função literária que ela nunca se pretendeu. A de afirmar que os ocorridos míticos se sucederam exatamente como diz os textos. A leitura infantilizada das escrituras desconsidera a própria Bíblia, a ridicularizando. E o mesmo que tomar a Ilíada de forma literal. Seria o mesmo que entender que existem minotauro, Medusa e Cérbero. E, pior, tentar encontrar evidencias empíricas de suas existencias.

Outra característica importante do neo-ateísmo é a militância e a crença irrestrita na ciência. A ciência tudo pode. Crença, em grego, pode se escrever como pistis e dóxa. A pistis consiste numa crença religiosa, enquanto dóxa é a crença cognitiva. E nesse sentido que Platão afirma no diálogo Teeteto que dóxa é a condição indispensável para o conhecimento. Assim, o princípio de qualquer representação da realidade se baseia na crença, como pensamentos e sentimentos. Pistis, por outro lado, foi traduzido por são Jeronimo, para o latim como fides e, posteriormente em português como credo, possui sentido de fidelidade, confiança, compromisso, não tendo sentido de posicionaento racional, cognitivo, epistêmico. Assim, afirmar que a ciência é uma religião talvez não seja etimologicamente correto. A crença que o cientista possui não é uma crença religiosa, mas uma crença epistemológica, baseada em evidencias empíricas. Pistis não garante evidencia empírica, mas confiança, e confiança não é certeza. Dawkins representa muito bem isso, mesmo não sendo filosofo, ao escrever Deus, Um Delírio, afirmando que a fê e uma crença sem evidencia. Fé não necessita de evidencia, necessita de confiança. Por isso o apóstolo Paulo em Corintios que diz que no céu não é necessário fé, mas evidencia, porque la não mais a confiança se torna necessária; Deus se torna evidente.

A forma como Dawkins, mesmo sem conhecimento aprofundado no que diz, por não se filósofo, assim como Onfray, Dennett e Sam Harris, falham por se assemelhar não como epistemólogos atuais, mas como positivistas do século XIX. Em Comte a ciencia tudo pode, tudo cura, não configura limites para o conhecimento e esse é o mesmo posicionamento dos neo-ateus. Ao afirmar isso, não consideram toda a crítica que a ciencia recebeu desde o inicio do século XX, com Karl Popper e Thomaz Kuhn. Pensar que a ciência se funda em teorias absolutamente comprovadas empiricamente consiste em engano; muitos pressupostos que fundamentam a pesquisa cientifica não possuem comprovação empírica.

Pode-se afirmar que não ha qualquer mistica entre ondas eletromagnéticas. Mas não ha como afirmar com certeza como esse fenômeno funciona. A, certeza, contudo advém de algum físico que teoriza sobre o assunto, mesmo que essa teoria não possua evidencia empírica. A certeza do físico credibiliza a teoria. Assim foi com os primórdios da física moderna e de muitos astrofísicos contemporâneos. A certeza depende, assim, da confiança. Ou de uma crença; Platão tinha razão.

Mas o neo-ateísmo possui também viés político. Se entendermos que Deus determina o funcionamento de muitas instituições sociais, está presente nas notas como 'Deus seja louvado', se apresenta em tribunais na forma de crucifixos, justifica guerras, abençoa exércitos, motiva a depredação de templos de outras denominações religiosas e a morte de infiéis, o ateísmo se mantém também presente como forma de protesto social. Esses ateus não especulam sobre a existência ou não de Deus, para eles as questões ontológicas não possuem importância. A recusa de Deus toma viés político na medida em que se questiona as instituições e, assim, alterar a sociedade e o status quo. Esse foi, por exemplo, o posicionamento de alguns autores do Iluminismo.

E comum o ateu afirmar que a religião é a culpada pelos dramas e desgraças que afligiram a sociedade. O Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, possui vários capítulos falando sobre o tema e coloca Deus e Ciência em pólos opostos. Nao leva em consideracao, contudo, que a ciencia deve algo dos religiosos porquanto muito do que foi pesquisado desde a Idade Média foi em mosteiros. Mendel e Copérnico foram religiosos. E pesquisadores. Sthepen Jay Gould defende em Pilares do Tempo; Ciencia e Religiao na Plenitude da Vida que Darwin nunca foi anti-religioso e nunca defendeu que sua teoria produzisse um evento contrário á religião. Einstein afirmava que a ciência sem a religião é cega e a religião sem a ciência é manca. A teoria do Big Bang surgiu com um padre jesuíta belga chamado Georges Lemaitre. Grandes biólogos modernos são religiosos. Apesar da ciência pressupor bases empíricas e, portanto, negar a topografia metafísica da realidade, ela não se opõe radicalmente á religião, podendo, em alguns casos, complementarem-se.

É que ocorre que existe o imaginário que existe uma relação inversamente proporcional entre QI e religião, de tal forma que quanto maior for a capacidade cognitiva menor será sua crença religiosa. Os ateus seriam, portanto, mais inteligentes, mais sábios que os crentes por possuírem uma percepção mais verossímil do mundo, isento de fabulas e relatos míticos. Mas o QI é uma mensuração histórica. Sua forma de graduação está relacionada á prestígios sociais. A elite intelectual possui maior QI porquanto é elite. Na Roma antiga, a elite política era estóica enquanto a massa da população era cristã e pagã. Com o passar dos séculos, com a ascensão de Constantino e Teodósio, a elite passou a ser cristã e essses passaram a ser mais inteligentes e sábios. O mesmo ocorreu com o Iluminismo onde os autores materialistas nunca possuíram o mesmo status político que autores cristãos e deístas.

Finalmente, a fórmula de muita razao e pouca fé tomou proporções no Brasil com as igrejas pentecostais, em que a reflexao crítica da realidade perde gradativamente espaço para muita emoção. A confiança irrestrita cede espaço para a verificação critica dos fatos empíricos. Isso faz com que a razao tambem seja utilizada na religiao, como sempre o foi durante seculos. Occan usava a razão com bases empíricas e também era religioso. O mesmo com Bacon.

Talvez ciência e religião não sejam opostos contraditórios como afirma categoricamente o neo-ateísmo. Thomaz Kuhn e Karl Poppler asim o veem. E possível até que, como cria Einstein, um oposto complemente o outro.

Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.