X-Men e o Bem

por Breno Lucano

Para todo e qualquer leitor de histórias em quadrinhos a pergunta fundamental é: porque os heróis são bons? Vemos o Superman salvando a humanidade, o Hulk sendo perseguido pelo exército, a Mulher Maravilha saindo de Themyscira para ajudar o mundo em guerra. Eles poderiam não ter escolhido esse destino. Poderíamos pensar, por exemplo, o Professor Xavier como um simples professor ou o Lanterna Verde apenas como mais um guardião, distante e desconhecido da Terra. Mas escolheram nos proteger. Por que?

Uma hipótese é que eles são motivados a serem bons por uma convicção de que esse tipo de escolha é o maio mais apropriado para garantir a tolerância e a aceitação entre as pessoas. Assim, sendo "o ser bom" possui conotação de cálculo estratégico e político, um meio de se alcançar um fim desejado. O objetivo de ser bom não é ser bom, mas a aceitação e a sociedade justa.



Por outro lado, quando pensamos nos mutantes, algo muda. Os mutantes são perseguidos pelos humanos. Humanos odeiam mutantes como sendo diferentes, ora por atravessar paredes, ora manipular a telecinese. Mesmo assim, ainda há o imperativo pelo bom e isso parece contrariar a idéia de que ser bom possui algum interesse próprio.

A reação comum aos que agem de acordo com o Bem não é amistosa, especialmente se houver convívio ou se estiverem próximas demais. Quando longe, essas figuras se tornam mitos e são reverenciadas como um norte. Com os X-Men isso não muda. Eles fazem o que tem que fazer, mas, no fundo, sem qualquer esperança de que algum dia eles serão aceitos. De algum modo, a tese de Magneto de que se deve renunciar os cuidados dos homens possui algum fundamento. Caso os X-Men fossem bons apenas desejando algo em troca, então Magneto teria alguma razão. Mas não é isso que ocorre. Eles podem fazer mil coisas, mas continuarão sendo perseguidos. Sendo assim, porque continuar?

Outra possibilidade é que eles, talvez, não tenham escolha. Pode ser que eles tenham uma condição psicológica tal que os faça a se preocupar necessariamente com os humanos. Ou, em outras palavras, o perfil psicológico influenciando nas escolhas e no modo de direcionar a vida. Pode ser que sua condição genotípica tenham lhe conferido poderes especiais, mas também características psicológicas tais que não lhes resta outra escolha senão fazer o Bem. Se assim for, a motivação talvez seja a própria satisfação que o fazer o Bem produza.

Interessante notar que, tendo super poderes, os mutantes não se importam com as sanções sociais. Não fazem o certo porque temem a polícia. Mas também não deixam de assaltar um banco porque podem ser presos. Mas então se descartarmos o perfil psicológico, as convenções sociais de certo e errado, disposição biológica, o que os motivaria?

A pergunta mais adequada seria: qual a motivação dos homens em serem bons? Podemos, afirmar, como Rousseau, que a educação garanta motivação para o desenvolvimento moral e ético. Mas não é garantia. Os melhores professores podem sofrer dissabores quando seus melhores alunos andam por caminhos errados. Contudo, parece consenso que crianças educadas num lar com paz, amor e aceitação se tornarão adultos psicologicamente mais saudáveis, o que contribui para o que andar no caminho do Bem, resistindo à natural tentação de se voltar para os próprios interesses. Talvez os abusos que Magneto sofreu na Polônia traduzam muito de suas características atuais.

E a educação fala muito quando nos referimos ao Professor Xavier e sua forma bem roussoniana de educação que propicia a um genuíno amor ao Bem. Seu pai morreu quando ainda era muito jovem, mas parece que ele teve uma mãe dedicada e atenciosa e, possivelmente, foi esse carinho e atenção que produziu nele seu amor pelo Bem. Uma característica específica da Escola Xavier para Mutantes é que esse é um lugar onde os mutantes, aqueles que são rejeitados, são ouvidos e respeitados em suas características. Wolverine, que sofreu muitos males e era indiferente, parece sofrer profunda transformação ao fazer parte de um lar, de um lugar onde ele é respeitado. Por outro lado, as destruições nazistas fizeram de Magneto alguém frio, que acha o amor de Xavier ingênuo e inadequado: o mundo age de outra forma! O mundo é mau. Mas essa é outra estória.



Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.