Dante's Cove e o Problema do Mal


Por Breno Bastos

O mal é uma das questões centrais da filosofia desde seus primórdios, com os gregos. A série de horror Dante's Cove reflete de modo incomum sobre tal problemática. No fim da segunda temporada, Diana permite que Van, por meio da cerimônia do solstício da libra, retorne ao passado e salve sua namorada Michelle do suicídio. Ao fazer isso, o que dá início à terceira temporada, Diana permite a presença real e concreta da mítica Casa das Sombras. Possuindo Michelle e depois Diana, a Casa das Sombras objetiva a destruição do mundo, começando pela própria ilha de Dante's Cove. Utilizando-se da flor estelar, Grace percebe a presença do ente maligno e, com a ajuda de Ambrosius e Griffin, o aprisiona em seu receptáculo.

No decorrer dos cinco episódios da temporada, o terror e o medo se espalham. Inicialmente os pais de Michelle são assassinados, seguidos por Van e Marcos; mais três funcionários do H2Eau e um frequentador do club, atacado na escada; e, por último, a tentativa de homicídio de Elena, além de vários corpos encontrados por Kevin num incêndio. O caos está disperso.

De modo diverso de Rousseau - para quem no homem era infundida uma bondade natural que o induzia à virtude - Sade sempre se caracterizou como o teórico do mal, do desejo e da perversão. Nesse terreno, a natureza - ou o mundo - não é entendido como uma mãe a proteger seus filhos e os conduzir ao bem e ao amor ao próximo. A natureza é a própria expressão do mal.

"O fogo arde por toda a cidade, a violência está instalada", ouve Kevin no rádio. E o Marquês concorda. A Casa das Sombras, que o libertino chamaria de Natureza, é o agente dos crimes e assassinatos. As virtudes, longe de um modo de redenção de uma culpa que não existe, são um entrave para a realização humana, ultrajando e desrespeitando os instintos naturalmente humanos.

As Sombras dizem a Diana o que ela realmente é. A faz se afastar de morais e padrões de comportamento socialmente determinados, assumindo um perfil metafísico e psicológico próprio e independente. As Sombras incentivam à supressão das virtudes e a levam ao assassinato, ao roubo, ao gozo de toda espécie. Os impulsos e desejos extraem as obscuras máscaras da vergonha, da culpa e de preconceito oriundos na crença de um ser sobrenatural que muitos chamam Deus. Para Sade, se existisse um Deus, não o seria da misericórdia e vida; seria o da espada, e o assassinato seu maior atributo.

Diana e Michele
A natureza é uma força apocalíptica assustadora, poder, ímpeto e vontade de destruição. A liberdade, para o autor de Filosofia da Alcova, portanto, não deve ser entendida como aprisionamento das Sombras por toda a eternidade, como acreditam os feiticeiros de Tresum. Ser livre significa apropriar-se de si, fazer o que se deseja, gozar às custas de quem for, não temer a opinião pública, a excomunhão de Tresum ou a prisão na Bastilha. "Ceder aos desejos que só ela coloca em nós é obedecer às suas leis; resistindo a elas, a ultrajamos." (SADE, Ciranda dos Libertinos, 2005, p. 48)

Tresum não impõe leis morais, como muitas religiões. Os feiticeiros da Lua e do Sol não estão impelidos a se comportarem segundo conceitos de bem e mal. Mas ainda assim eles existem. "Este inimigo não hesitará em trucidar a todos nós", diz Grace a Kevin após esta menciona que teria que matar Toby no último episódio. A genuína moralidade, para Sade, a única coisa pelo qual se deve pensar, é em como se satisfazer, quando prender Ambrosius no porão do Hotel Dante, extrair energia vital em The Lair, usar Saint até a exaustão. Os excessos são a verdadeira salvação.

Não, as sombras nunca foram aprisionadas. Diana desaparece misteriosamente no último capítulo, mas ainda se encontra dispersa no mundo. Não se desintegra, apenas procura o momento apropriado. Kevin foi liberto da prisão de Ambrosius, mas pode voltar num futuro próximo, talvez até mesmo hoje. Adan e Toby estão presos no maldito espelho da tortura e da morte, à espera do próximo suplício e, quem sabe, de uma esperança, de um alento provisório, de uma fuga do desencantado mundo de destruição de Dante's Cove. O mal continua presente, em toda parte, queiram ou não.

Quantas vezes fomos e seremos possuídos pela Casa das Sombras?


Artigo Relacionado:

Dante's Cove: Análise Filosófica

Proclo e a Origem do Mal

Dantes's Cove e o Tempo


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.