Cristianismo: O Problema Moral

por Breno Lucano

De modo diverso do que ocorre com as religiões da Antiguidade, que representavam um Estado e suas políticas, o cristianismo nasce como religião do indivíduo, do sujeito, e que, como tal, não se define, à priori, como sendo gerado à partir de uma nação, mas unicamente por sua fé num Deus único.




A consequência da gênese do cristianismo é que sua vida ética não se articula com a sociedade, mas com sua relação espiritual e subjetiva com Deus. Assim, o cristianismo introduz duas diferenças em relação às religiões primordiais. A primeira é que a idéia de virtude se define pela relação do sujeito com Deus, único mediador entre o homem e seus demais. A pólis, portanto, cede espaço em sua função de estabelecer limites legais e convenções. Assim, tomam-se as duas primeiras virtudes, fé (que estabelece relação com o divino) e caridade (que estabelece relações entre os indivíduos). Ambas gravitam a partir da intimidade e da interioridade de cada um.

A outra diferença diz respeito à liberdade. Para os filósofos antigos, a razão se torna capaz de controlar e dominar os movimentos passionais dos apetites e desejos, estabelecendo, portanto, uma vontade dominante capaz de direcionar a ação moral. Contudo, para os cristãos a vontade está pevertida via pecado original. A ação moral está nitidamente corrompida pela repulsa às leis divinas, capazes de conduzir o homem ao mal.

Essa perspectiva faz do homem alguém incapaz de julgamento moral adequado sem que Deus interceda, por via da revelação. A revelação, sendo a própria expressão de Deus, delimita as ações, ao mesmo tempo em que julga o que é ou não moral e ético. Ela informa o que é bem e mal, a virtude e o vício, a falsidade e a verdade, a salvação e o castigo. Nasce a deontologia, o dever.

Juntamente com a idéia do dever, a moral cristã introduziu uma outra, também decisiva na constituição da moralidade ocidental: a idéia de intenção.

Até o cristianismo, a filosofia moral localizava a conduta ética nas ações e nas atitudes visíveis do agente moral, ainda que tivessem como pressuposto algo que se realizava no interior do agente, em sua vontade racional ou consciente. Eram as condutas visíveis que eram julgadas virtuosas ou viciosas. O cristianismo, porém, é uma religião da interioridade, afirmando que a vontade e a lei divinas não estão escritas nas pedras nem nos pergaminhos, mas inscritas no coração dos seres humanos. A primeira relação ética, portanto, se estabelece entre o coração do indivíduo e Deus, entre a alma invisível e a divindade. Como conseqüência, passou-se a considerar como submetido ao julgamento ético tudo quanto, invisível aos olhos humanos, é visível ao espírito de Deus, portanto, tudo quanto acontece em nosso interior. O dever não se refere apenas às ações visíveis, mas também às intenções invisíveis, que passam a ser julgadas eticamente. Eis porque um cristão, quando se confessa, obriga-se a confessar pecados cometidos por atos, palavras e intenções. Sua alma, invisível, tem o testemunho do olhar de Deus, que a julga.


Filósofo por paixão. Ex-seminarista da Ordem dos Franciscanos. Humanista. Áreas de interesse: Cinismo; materialismo francês; Sade; Michel Onfray; ética. Idealizador e escritor do Portal Veritas desde dez/2005.